A Sentença de Tomas

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O moreno trajava um terno de boa qualidade, e estava sentado numa das extremidades da mesa de madeira maciça. Era bem aparentado e segurava um lápis numa das mãos, e um bloco de notas contendo algumas coisas escritas na outra. Parecia bem tranquilo e até mesmo confortável, apesar daquele cômodo mal iluminado ter um aspecto claustrofóbico.

Do outro lado da mesa estava Tomas. Um sujeito bem entediante apesar de não ser tão velho quanto aparentava. Tinha cabelos castanhos e um bigode bem farto.

– Tomas, você sabe por que está aqui, certo? – O homem perguntou sem tirar os olhos do bloco de notas.

– Sim… – Tomas respondeu apreensivo.

– Então pode repetir, por favor?

– Estou morto. – A palavra claramente o incomodava.

– E? – O homem no terno disse balançando o lápis e erguendo as sobrancelhas para ele.

– E estou no inferno, mas não sei o motivo, sempre fui uma pessoa boa, um cristão devoto. – Sua voz ficou meio trêmula conforme foi terminando a frase.

– É claro que foi. Você morreu enquanto dormia. Morte súbita, praticamente indolor, causada pela epilepsia. – Ele folheou o bloco – E você acreditava que acabaria morrendo enquanto dormia desde os vinte anos de idade. Parabéns, acertou na mosca!

Tomas continuou olhando para ele, meio que assustado e sem entender muito bem o comentário do homem do terno. Ele buscou o crucifixo que sempre carregava no peito, mas lembrou que tal símbolo era proibido onde estava. Ameaçou levantar a mão para fazer uma pergunta.

– Pergunte logo, não precisa levantar a mão.

– Você é o Diabo? – Tentou parecer o menos inconveniente possível.

– Mas é claro que não. – Ele respondeu como se fosse a pergunta mais idiota do mundo. – Mas se há necessidade de saber quem sou, pode me chamar de Ronove, não é muito usado hoje em dia, mas é o único que gosto.

– Certo. – Tomas entrelaçou os dedos e continuou a despejar perguntas – O que vim fazer aqui nesta sala, exatamente? Quando cheguei você mencionou que sou um caso raro, o que isso significa?

– Tudo será esclarecido em breve, apenas relaxe. Vou fazer uma pergunta, quanto mais rápido responder, mais rápido sairemos daqui. – Ronove sorriu para ele, como se todos os seus problemas fossem ser resolvidos depois disso.

Tomas assentiu e deu mais uma olhada naquele cômodo fantasmagórico. Uma única lâmpada amarela estava pendurada a partir do teto cheio de infiltrações e teias de aranha. As paredes estavam razoavelmente limpas, mas com um semblante abandonado por conta dos azulejos partidos ou trincados, e não havia nada mais para olhar.

– Muito bem. – Ronove falou de repente, assustando o acuado Tomas, e manteve os olhos em seu bloco de notas o tempo todo – Antes de morrer você estava tendo um sonho muito intenso. Gostaria de me contar?

O morto abriu a boca para dizer que não se lembrava dos detalhes, mas surpreendentemente ele percebeu que sim, se lembrava dos detalhes e com perfeição jamais experienciada.

– Bem… – Ele começou – Me lembro de estar numa floresta caminhando sem preocupações, mas não era exatamente meu corpo que eu controlava. Tinha quatro patas, couro, chifres, e um rabo. Não sei dizer exatamente o que eu era, poderia ser um cervo, um veado, uma cabra, mas acho que não é importante, eu me sentia poderoso independente do que fosse.

– Continue, por favor. – Ronove pediu após uma período moroso da parte de Tomas, anotando coisas.

– Eu brilhava, mas não era luz, era algo maior e mais forte, tanto que meu corpo parecia um borrão branco, ofuscante como o sol. Eu sabia que tinha alguma cor, mas acredito que ninguém pudesse enxergar. – Tomas tinha o olhar perdido enquanto falava, parecia estar revivendo seu sonho – Nunca me senti tão poderoso em toda minha vida. Algumas sombras de pessoas me olhavam temerosas, tentando se esconder atrás das árvores, mas minha grandiosidade não havia sido feita para que olhos mortais admirassem, eu era algo incompreensível pelos seres mortais.

Entre as palavras que Tomas dizia era possível escutar o som do lápis rabiscando a folha do bloco de notas, transcrevendo tudo o que era pronunciado. O ambiente ao redor era puro silêncio.

– A sensação que tive enquanto caminhava era que nada fosse impossível pra mim. Podia criar e destruir o que quisesse e da maneira que achasse melhor. Apesar de não ter asas, voar não era um problema, eu me sentia capaz de subir até a Lua num piscar de olhos. Nunca me senti tão próximo de Deus, e, ainda no sonho, comecei a rezar, esperando encontrá-lo e agradecê-lo pelos poderes que me foram concedidos naquele momento. Não me preocupei em saber o por quê de estar na pele de um animal, ou como havia ido parar naquela floresta, eu queria apenas conhecê-lo. Apesar de parecer tudo real, eu não me questionei sobre nada. – Vez uma pausa para umedecer os lábios.

– Entendo. – Ronove disse, agora olhando para Tomas com um ar de esperteza. – O sonho continuou por mais alguns instantes, não é mesmo?

Tomas hesitou antes de continuar. Se perguntou o motivo de Ronove induzir ele a prosseguir com a história, mesmo parecendo já conhecer todos os detalhes da mesma.

– Sim. – Tomas falou. – Eu caminhei por mais algum tempo. Sentia tudo ao meu redor, cada inseto, gota de água, e criatura viva, inclusive Deus Todo-Poderoso. Notei que a cada passo que dava, me aproximava ainda mais Dele. Quanto mais ia em frente, uma escuridão tenebrosa se intensificava na floresta, ou talvez fosse meu próprio brilho oscilando, não sei dizer muito bem. As folhas, flores, grama, arbustos, toda a natureza assumiu cores diferentes, variando entre púrpura e vermelho-escuro. Era bonito, mas senti que, caso continuasse naquela trilha, perderia os poderes de proporções eternas que tinha. Resolvi dar meia volta e seguir por outro caminho. O vermelho-escuro ainda era bem vivo nas copas das árvores, e os troncos e gravetos permaneceram púrpuras. Para ser sincero, não me importei nem um pouco. Toda a minha essência manteve seu brilho e sua imponência. Eu era infinito…

– Algo mais a dizer? – Ronove finalizou suas anotações.

– Não, isso é tudo. – Bufou – Ainda vou para o inferno?

– Vai. Mas anime-se. Não é tão ruim quanto parece.

– Não, por favor! – Tomas gritou com os olhos lacrimejantes, caindo de joelhos e fazendo um sinal de cruz no peito. – Eu sou uma pessoa religiosa, não sou um pecador!

– Você, pobre Tomas. – Ronove se levantou e olhou para o morto de cima para baixo. – Voou perto demais do sol. A saída fica logo ali.

A Árvore e a Coruja


A Coruja encontrou um bom lugar para descansar no galho mais resistente de uma Árvore. Antes disso, a majestosa planta estranhava a ausência de visitantes naquela tarde de outono, já que nada além de insetos haviam percorrido suas grandes folhas amareladas.

– Estou desapontado. – Queixou-se a Coruja.

– E eu digo o mesmo, meu amigo. – Respondeu a Árvore.

– Não há o que comer. Não há esconderijo bom o bastante. E cada vez encontro menos refúgios como este galho. – A ave lamentou.

– Minhas raízes se formaram aqui há muitas estações, pode confiar em minha segurança. – Disse a Árvore, deixando que seus galhos balançassem com a chegada de uma brisa.

– Por pouco tempo, ouso dizer.

– Então me responda, coruja viajante – A Árvore falava num tom mais questionador – O que acha que deveria ser feito para que minha copa lhe garantisse a proteção que tanto precisa?

– Devíamos abolir os machados que destroem a madeira. – Respondeu a Coruja de imediato.

– E quanto aos lenhadores? Não são eles os verdadeiros culpados? – Disse a Árvore.

– Então que sejam abolidos os lenhadores.

– Mas máquinas viriam em seus lugares.

– Então o que você a senhora sugere? – Disse a ave num tom impaciente.

– Devíamos abolir a humanidade. – Ela respondeu.

O Peixe

Começou em 21 de fevereiro de 1926, uma data que nunca vou esquecer. Foi neste dia em que partimos do Rio de Janeiro a bordo da Verônica, o pesqueiro do Capitão Viçosa. Era uma manhã de verão bastante agradável e eu tinha o rosto livre de rugas e os cabelos ainda escuros. No pesqueiro estávamos eu, Capitão Viçosa, que era filho de portugueses, Benedito, Francisco, e Martins, que não passava dos dezoito anos de idade, e, se me lembro bem, ele havia dito que aquela seria sua primeira viagem à alto mar. O pobre coitado estava animado à beça, subindo no convés exibindo seus dentes tortos num sorriso bem-disposto. Benedito e eu fazíamos parte da tripulação há pouco mais de um ano, enquanto que Francisco já trabalhava com Viçosa há pelo menos cinco anos, mais o menos o tempo de existência da Verônica.

– Feche essa boca ou uma gaivota vai cagar dentro dela, rapaz. – Disse Francisco ao ver o sorriso de Martins.

Francisco sempre foi meio rabugento, já estava perto dos quarenta anos e seu bigode era tão grande quanto grisalho. Ele havia pedido a Martins para ajudá-lo a empilhar as caixas onde colocaríamos os atuns durante a pescaria dos dias seguintes. Enquanto isso eu e Benedito embarcávamos com cobertores e coisas da cozinha. O Capitão Viçosa era muito rígido com o cuidado que deveríamos ter com o estoque de comida, pois em longas jornadas de pesca a comida é a carga mais importante. Alguns mendigos perambulavam por perto, marujos de outras embarcações passavam para lá e para cá o tempo todo, e não muito longe dali eu via o Mosteiro de São Bento, uma construção muito bonita da qual me arrependo de nunca ter visto bem de perto.

Verônica flutuava nas águas da baía de Guanabara e era considerada uma embarcação simples apesar de seu tamanho avantajado em comparação aos outros pesqueiros. Tinha o casco pintado de branco e os detalhes em verde, que naquele tempo já estavam encardidos e a cor verde parecia muito mais com manchas de lodo contornando as bordas do navio. Seu nome estava pintado em belíssimas letras garrafais da cor vermelha, que ainda mantinha a mesma intensidade desde quando foi pincelado na lateral do casco pelo irmão do Capitão, sujeito do qual ele sempre evitou falar.

Quando os preparativos para zarparmos já haviam sido finalizados, eu me sentei na proa e desamarrei a corda grossa que estava presa num tronco de sustentação do cais. O motor rugiu logo em seguida com o Capitão no timão.

– Parece que essa vai ser uma pescaria das boas, não é? – Disse Benedito, com um cigarro de palha pendurado em seus lábios rachados.

– Trinta dias em alto mar com vocês… Não sei se aguento – Respondi com um sorriso e acendendo meu próprio cigarro.

– Espero que voltemos com aquelas caixas cheias, quero que o esforço valha a pena. Estão dizendo por aí que os malditos argentinos pegam os nossos peixes, dentro do nosso território! – Ele disse, cuspindo na água logo em seguida.

Já estávamos há aproximadamente um quilômetro de distância do porto quando essa conversa surgiu, e Francisco apareceu saindo do interior do navio com uma espingarda antiga em mãos.

– Juro que se eu vir algum argentino ele vai ganhar um furo no peito. Há-há-há! – Ele riu exibindo seus dentes podres.

Benedito lançou um olhar de preocupação para mim. Ele era um homem muito religioso, mas sua preocupação não era exatamente em matar argentinos. Francisco, homem de temperamento explosivo, com uma espingarda a bordo certamente não era uma boa combinação. Ainda mais com quase quinze litros de cachaça estocada. O Capitão normalmente não aprovaria tanto as bebidas quanto a arma em um dia de trabalho comum, mas ele estava irritado de verdade com os argentinos roubando nosso atum, e passar trinta dias vendo nada além de águas salgadas em todas as direções poderia deixar um homem descontrolado sem os prazeres proporcionados pelo álcool.

Enquanto saíamos da baía de Guanabara, vendo o litoral distanciar-se cada vez mais, eu e os outros pudemos relaxar. Só estaríamos aptos a pescar alguma coisa daqui algumas horas e não havia muito que fazer até então. Sentei sobre uma caixa, o cigarro já no fim, e observei as águas que rodeavam a Verônica. O mar sempre me fascinou, e sinto um calafrio só de pensar o quão fundo ele pode chegar. Os homens conseguiram dominar a terra, e agora os céus, mas o mar é furioso e impossível de ser vencido por nós, seres humanos. Não podemos respirar debaixo da água, não enxergamos direito, não nos movimentamos muito bem, ele simplesmente não foi feito para nós.

Martins estava enrolando algumas cordas ao lado das grandes redes de pesca, que mais tarde seriam abertas e presas em longas hastes posicionadas diagonalmente em cada um dos lados da Verônica. Eu gostava da aparência que a embarcação tinha quando passava as redes pela água e emergia carregada de peixes, que futuramente seriam vendidos para fazendeiros ou para feirantes. Um bom negócio, muito estável. Naquela época eu sonhava com o dia em que juntasse dinheiro o suficiente par ter meu próprio navio e começar meus próprios negócios, mas é complicado, embarcações como Verônica são difíceis de encontrar. E quando encontra, custa um preço absurdamente alto.

– Eu espero que consiga fazer isso algum dia, Roberto – Viçosa dizia para mim com seu sotaque de português europeu – Mas a concorrência é grande e está cada dia mais difícil conseguir um barco bom por um preço justo.

Ao anoitecer, nos juntamos na sala de jantar como de costume, que não era nada além de um cômodo apertado com uma mesa redonda e vários banquinhos de madeira. Benedito, que geralmente cozinhava, tinha feito uma sopa de carne de galinha, havíamos trago pouca carne, e devíamos consumi-la o mais rápido possível já que a geladeira do barco não funcionava muito bem. Viçosa comprou o aparelho de um veleiro italiano que havia passado pelo porto do Rio de Janeiro no ano passado, e só funcionou depois que passou pelas mãos de Guimarães, um engenheiro conhecido do Capitão.

– Isso é comida para manter o corpo de pé. Não é comida pra peidar cheiroso, garoto – Benedito disse ao ver a cara feia de Martins diante da sopa, que, apesar de estar com um aroma gostoso, tinha aparência de lavagem.

Sempre gostei da comida que minha amada noiva fazia. Eu costumava visita-la e levar algum presente, e para mim ela preparava um verdadeiro banquete. Sua família não era endinheirada, mas seu pai era padeiro e seu estabelecimento tinha adquirido certa fama nos subúrbios do Rio. Carina era seu nome, e tinha um rosto macio e olhar tímido. Cabelos negros e um tanto quanto esguia. Sinto falta dela nos dias de hoje.

Logo depois do jantar estávamos livres para ir dormir, já que só estaríamos na zona de fartura no meio-dia de amanhã. O dormitório consistia em dois beliches velhos, e os aposentos Capitão ficavam logo ao lado, podíamos ouvi-lo roncar às vezes. Ele ficava num cômodo bem menor, mas ao menos a cama era mais confortável. Martins e Benedito foram jogar cartas na cozinha. Francisco dormia num dos beliches. E eu estava ao lado de Viçosa, que guiava Verônica através do timão.

– Não tá achando as águas um pouco agitadas? E o vento um pouco forte demais? – Perguntei enquanto esfregava as mãos descobertas.

– Um pouco. Rezo para que não tenhamos uma tempestade, ou não vamos conseguir pegar nada amanhã. – Respondeu esfregando os olhos. – Mas não seja tão pessimista, Roberto. Está me deixando tenso.

Na dianteira, dois holofotes estavam ligados iluminando com precisão até trinta metros adiante e de lá pra frente nada mais. Não havia recifes ou bancos de areia naquela região, então nossa única preocupação eram outras embarcações.

– Vou dormir, vejo você amanhã, Capitão – Me despedi e ele me desejou uma boa noite de descanso.

Me dirigi até o dormitório, passei pela cozinha e desejei boa noite para os dois que jogavam cartas, e deitei no meu beliche, logo acima de Francisco. Pensei que o Capitão revezaria o timão com Benedito, já que ele não falara nada comigo, mas vi Benedito e Martins chegando ao dormitório uns trinta minutos depois de mim, sinal de que Viçosa desceria a âncora, e que amanhã teríamos um trabalho danado para puxá-la de volta, mas pouco importava, eu só queria ter uma noite de sono tranquila.

*

*             *

Meus olhos arregalaram com o estrondo ensurdecedor de um trovão. Os anos a bordo de embarcações me deixou tão acostumado com o movimento das águas que não havia percebido que Verônica estava balançando mais do que deveria, sinal de que as ondas nos atingindo não eram nem um pouco pequenas. Recebi uma descarga de adrenalina muito forte, mas meu corpo ainda estava se aprumando, eu havia acabado de me levantar e com todo aquele balanço acabei perdendo o equilíbrio e caindo. Lembro-me desta cena com perfeição. Eu estava meio que curvando o corpo para frente, e a Verônica se inclinando para trás, e de repente toda a estrutura da cabine se moveu para frente também, e eu fui arremessado de cabeça no criado-mudo que havia sido pregado ao chão por mim mesmo, semanas atrás, pois estava cansado de ter que arrastá-lo de volta para seu lugar. Senti uma pressão na testa, uma tontura que me impedia de levantar e perdi a consciência. Talvez tivesse sido melhor assim.

Abri os olhos devagar e a minha testa latejava, uma dor constante que parecia ter perfurado meu crânio. Tive a sensação estranha de que havia perdido alguma coisa. Um pano estava enrolado ao redor da cabeça e Martins me encarava, com os olhos vidrados. Senti um forte cheiro de fumaça. Flashes da tempestade e da minha queda passaram por meus olhos, praguejei e me levantei desajeitado. Não havia mais tormenta alguma, e pensei que Martins estava em choque.

– Ei, garoto! – O cutuquei no ombro.

Ele sacudiu a cabeça como se tivesse acordado de um transe, e olhou para mim. Pigarreou antes de falar alguma coisa.

– Vai lá fora. Você não vai acreditar no que pescamos durante a tempestade. – Falou misteriosamente.

Martins não havia dito aquilo com animação, e também não entendi muito bem o que ele quis dizer naquele momento, apenas andei até o convés o mais rápido que pude movido pela curiosidade e irritado pela dor de cabeça.

No convés notei que ainda era noite, e vi Benedito ajoelhado e com um crucifixo de madeira em mãos. Balançava o corpo para frente e para trás e murmurava algumas palavras. Quando apareci ele olhou para mim, pálido e molhado, talvez fosse suor, mas o mar ainda estava ligeiramente agitado e o convés empoçado. Não falou nada, apenas continuou suas preces em voz baixa.

A grande lona de couro que usávamos para cobrir a pesca do sol estava estirada sobre algo volumoso e cumprido, com talvez dois metros de uma ponta a outra.

– Um tubarão? – Perguntei apontando para o corpo estranho que parecia pulsar.

Benedito choramingou e se encolheu ainda mais. Francisco, segurando a espingarda com as duas mãos, se aproximou de mim em passadas largas.

– Afaste-se! – Gritou quando eu ameacei tocar a lona. – Não ouse fazer isso, Roberto.

– Cadê o Viçosa? – Perguntei, achando aquilo tudo muito estranho.

Francisco ficou pensativo de repente, olhava para os lados como se tentasse se lembrar de alguma coisa.

– O Capitão foi quem viu primeiro… A coisa… Ele tentou cobrir com a lona, mas antes que conseguisse… – Fez uma breve pausa com os olhos fechados e voz trêmula – Benedito teve que cobrir… Eu só vi de relance. Martins viu tudo de longe. Vamos todos morrer! – Falou demonstrando claramente estar num estado de delírio.

Não tentei levantar a lona de novo, e confesso que fiquei com medo de Francisco. Ele não estava normal. Seus olhos vibravam e as mãos tremiam sem controle. Eu não fazia ideia do que se escondia ali, mas pelo que pude entender, tinha matado Viçosa.

– É o demônio! Prole de Satã! – Berrou Benedito subitamente – Está na minha cabeça! Vai estar na de vocês também! – Ele, que até então estava ajoelhado, levantou e correu para o interior da embarcação.

Fiquei atordoado por alguns segundos enquanto olhava para a porta onde Benedito se atirou, e pude notar uma coluna de fumaça enorme junto de sinais de chamas vindos da proa de Verônica.

Entrei apressado e passei por cima de muitas coisas caídas. Convenci a mim mesmo durante o percurso que seja lá o que estivesse debaixo da lona de couro derrubou Viçosa no mar durante a tempestade, e fui seguindo meu olfato, indo na direção do fogo.

O incêndio era na cabine de navegação. Não faço ideia de como começou, mas já havia se espalhado por todo aquele cubículo e destruído os vidros das janelas graças ao calor. As tábuas do chão estavam pretas assim como o teto, e havia muita fumaça. Eu nunca havia visto um barco ser incendiado durante uma tempestade, mas deduzi que fora obra de um raio. E o fogo precisava ser parado, ou se espalharia por toda a embarcação.

Procurei por Martins, ele era o menos experiente dali, mas certamente não estava histérico como os outros dois.

– Garoto! Vá até a cozinha e pegue baldes de água! Precisamos apagar o fogo! – Gritei enquanto o agarrava pelos ombros.

– Fogo? – Ele perguntou calmamente.

– Vai destruir o barco inteiro se não dermos um jeito agora mesmo.

Corri para a cozinha por conta própria e ele veio atrás. Ajudou-me a encher dois baldes, os quais eu carreguei até a cabine de navegação e despejei no chão, bem onde o fogo se formava com mais intensidade. Martins me acompanhou com mais dois baldes, somando ao todo quatro enxurradas que acalmaram as chamas. Para nossa sorte a tempestade já havia espalhado água em todos os cantos da Verônica, deixando a madeira umedecida, se fosse num dia escaldante eu já teria sido tostado antes de acordar.

Bufei de alívio. O fogo em algumas ocasiões pode gerar um desastre muito maior do que um buraco no casco do navio.

– Pelo amor de Deus, Martins! Me conte o que houve com Viçosa! – Falei enquanto largava o último balde vazio no chão.

Agora que a emergência de maior importância havia sido resolvida, eu estava mais desesperado do que nunca. Precisava de alguém para me ajudar a entender tudo o que estava acontecendo, já que os dois marinheiros mais antigos e experientes que trabalhavam comigo estavam descontrolados de uma maneira que eu nunca vira antes.

– A tempestade o trouxe… – Martins falou com o olhar vazio.

– O quê?

– O Peixe. – Olhou para mim e esfregou as próprias mãos tomadas pela aflição – O Peixe! Ele está no barco!

– Qual peixe? Um tubarão? – Perguntei mais uma vez, já que da outra não havia tido uma resposta.

– Eu não o vi direito, assisti tudo com a janela fechada, e a tempestade distorceu minha visão. – Começou a falar e virei dois baldes de ponta-cabeça para que pudéssemos sentar – Quando acordei os três já tinham levantado, e não consegui distinguir quem era quem. Mas havia alguma coisa estranha no convés, algo caído que se mexia e fazia um som estranho… Um som diabólico. – Ele começou a chorar, e fiquei genuinamente assustado, mas pedi para que prosseguisse – Os três gritaram e taparam os ouvidos. O barulho não parava e Viçosa foi o mais corajoso, pegando a lona e jogando-a sobre Ele. Porém, o Peixe o agarrou e a lona caiu sobre os dois. Benedito tentou ajudar e Francisco se agachou num canto. Benedito olhou por tempo demais… Benedito olhou demais. – E repetiu a última frase por mais umas quatro vezes.

Minha reação imediata foi ir atrás de Benedito, já que ele havia visto a Coisa de perto. Deixei Martins na sala judiada pelo fogo e desci rapidamente para o dormitório, onde supus que ele estaria após deixar o convés berrando insanidades.

– Benedito? – Indaguei assim que entrei no cômodo.

Eu estava ouvindo sussurros, uma voz baixa que lamentava através de palavras incompreensíveis. Palavras estranhas. Fui caminhando lentamente entre os beliches, a madeira do chão rangia e o barulho do mar já era inaudível aos meus ouvidos por conta do costume de ouvi-lo. Quando o encontrei, pude ver que estava de joelhos voltado para a parede, curvado sobre o piso. A princípio pensei que estivesse rezando em latim, ou alguma coisa parecida, mas não.

– Benedito? – Chamei sem coragem de cutucá-lo.

Ele ergueu o corpo, mas permaneceu ajoelhado. Agora falava mais alto, quase gritando. Só então percebi que estava arranhando o chão com as próprias unhas, agora ensanguentadas. Eram símbolos esquisitos em formas geométricas que, possivelmente, compunham palavras.

– Ph’oglui morr’nafh Ibo-dar faugn tsathogghua’c ehye k’yrnak lw’nor. – Ele dizia e repetia incessantemente numa voz inumana, semelhante ao chiado de uma cobra.

Reuni coragem para me convencer de que ele estava apenas delirando e o puxei pelo ombro, fazendo com que se virasse abruptamente. As unhas de suas mãos estavam tortas, quebradas e partidas, pingando sangue vermelho. Os olhos, quando tentei chamar sua atenção, estavam brancos, voltados para o lado contrário de sua cabeça.

– Benedito! Acorde! – Eu gritei sem saber o que fazer. E ele não respondeu.

Ainda daquela maneira, Benedito segurou meus braços com força e gritou com uma voz estranha:

– Mão ou olho, dentre os mortais e imortais, jamais deve desafiar a totalidade daquele que descansa nas profundidades.

Dito estas palavras ele caiu desacordado. Agora com os olhos fechados, filetes de sangue saíram de suas narinas. Segundos depois uma tremedeira se espalhou pelos braços e pernas, e eu tinha certeza de que ele morreria. Mas na verdade não era morte, transformação seria a palavra ideal. A pele dele assumiu uma coloração cinzenta num piscar de olhos e ficou muito ressecada. Ele gritou agonizante expondo o interior arroxeado de sua boca, agora dotada de dentes pontiagudos. Aquilo parecia piorar a cada momento, até que um estouro quase me deixou surdo de um dos ouvidos. Senti o cheiro de pólvora e assim que abri os olhos após o susto notei um buraco na testa de Benedito, com sangue respingado ao redor e uma massa vermelha no interior da ferida.

– Deus do céu! – Gritei dando alguns passos desajeitados para trás. – O que é isso?

Dei meia volta e vi Francisco segurando uma espingarda. Pupilas dilatadas e respiração ofegante. Ele não delirava como Benedito, mas parecia extremamente perturbado.

– Ele precisou morrer… – Falou em voz baixa, soltando a arma no chão. – Assim como eu ainda preciso. Não quero acabar como ele.

Olhei novamente para o corpo imóvel de Benedito. A pele ainda permanecia com aquela estranha aparência escamosa, assim como os dentes afiados. Martins irrompeu pela porta do dormitório com um par de olhos esbugalhados. O rapaz encarou a cena medonha por um segundo e vomitou, curvando-se sobre si mesmo.

Francisco correu para o convés e nenhum de nós o seguiu. Nunca mais o vi. O tom assombroso de suas últimas palavras com aquele olhar irreconhecível no rosto ficaria cravados em minha memória pelo resto da vida.

– Já chega! – Gritei. Estava tomado por raiva, confusão, e histeria.

– O que vai fazer? Estamos todos condenados. – Martins falou enquanto limpava os lábios.

– Vou ver o que está por baixo daquela maldita lona e arrancar as vísceras da criatura com uma faca.

Saí do dormitório com pressa e peguei uma faca de cortar carnes quando passei pela cozinha. Pude ouvir os protestos de Martins, mas não entendi uma única palavra. Eu nunca estive tão confuso em toda minha vida.

Minha mão apertava o cabo da faca com tanta força que chegava a doer os ossos dos dedos. Confesso que quando parei diante da lona, fixando o olhar naquele volume pulsante, hesitei com medo e por pouco não desisti. Mas fiz o que disse que faria, descobri a tal monstruosidade.

*

*             *

Eu puxei o tecido com força e revelei a entidade dantesca que se escondia por baixo. Logo me dei conta de que teria sido melhor não tê-lo feito.

Por muitos anos de minha vida eu fui incapaz de descrever para mim mesmo o que vi naquele instante. Eu começava a suar frio, a respiração ofegava, e eu entrava em pânico só de relembrar a situação, chegando perto do desmaio muitas das vezes. Mas agora que estou velho e a história parece ter acontecido em outra vida, percebo que relembrar aquela visão não é uma coisa tão dolorosa quanto costumava ser no passado.

No momento em que fixei os olhos no Peixe, recebi uma onda de sensações estranhas, como um turbilhão de emoções num único segundo infinito. Meu estômago revirou e um gosto amargo veio à boca. Pisquei os olhos repetidamente, pois o ar que o circundava parecia arder em podridão. Senti uma súbita vontade de gritar, chorar, e até mesmo esmurrar alguém, mas essa sobrecarga de sentimentos apenas me fez paralisar de tal maneira que absolutamente nada além de minha mente trabalhava.

Somente quando venci estas impertinentes barreiras invisíveis pude entender o que estava diante dos meus olhos. O que aparentemente era sua pele possuía uma cor vende e era muito fina, quase transparente, de tal modo que era possível enxergar os rostos e pedaços humanos que se remexiam em sua grande barriga inchada. Os braços atrofiados, munidos de barbatanas nas articulações, moviam-se meio que for reflexos involuntários. No geral, a criatura parecia estar em sofrimento. No que deveria ser sua cabeça, deformada e pulsante, havia tentáculos que se balançavam cegamente, evitando tocarem nas inúmeras bocarras oleosas e olhos espalhados aleatoriamente por toda aquela parte do corpo.

Eu compreendo que é difícil entender. E acredito com sinceridade que nem deveriam, pois eu poderia preencher cem páginas com palavras a fim de ilustrar o Peixe, mas a única conclusão que teriam é que não fomos feitos para conceber aquilo que não pertence ao nosso mundo. E, além disso, não foi a horrenda criatura que tanto me assombrou durante toda minha vida, mas sim os rostos de Viçosa e Francisco que jaziam numa tortura sempiterna dentro das tripas da Coisa.

Com os músculos fraquejando, meus dedos se abriram e soltaram a faca que eu segurava com tanta bravura até o momento. Meus ouvidos, cansados de escutarem tanto sofrimento, agora escutavam um música serena, e ouso dizer que até mesmo relaxante, lembrando o toque sutil de uma harpa e o deslize gracioso do arco sobre as cordas de um violino. Por mais estranho que pareça, aquela música, de fato, vinha do Peixe, e percebi que sua beleza não estava na aparência, apenas na voz.

Quando aquelas palavras que pareciam estarem munidas de cores vibrantes chegaram aos meus ouvidos eu pude entendê-las com incontestável clareza.

– Leve-me ao mar! E poupe sua mente da loucura que minha imagem pode lhe causar. Leve-me ao mar, de volta para o mundo imperscrutável ao qual pertenço.

Fechei os olhos por um segundo, ou talvez mais, eu não tinha mais controle do meu próprio corpo. Minha mente se transcendeu para cantos obscuros do cérebro, onde essência que me mantinha vivo era insignificante. Vi o universo diante de meus olhos que observavam a tudo com incredulidade, meu corpo vagava numa escuridão profunda além das estrelas, contemplei a inigualável dança dos astros celestiais que se moviam como ondas brilhantes nos salões vazios do espaço, belezas indescritíveis para aqueles que algum dia possa ler este relato. E no segundo seguinte eu estava com frio, à beira do congelamento, num mar tão fundo e escuro quanto o espaço acima dos céus. Testemunhei a simetria perfeita de uma cidade arruinada, afogada nas águas dos oceanos e tomada por algas e crustáceos asquerosos. Todo o espírito majestoso daquele lugar estava perdido em algum lugar do passado, como lembranças que aos poucos vão se tornando tristes em sua mente e, quando se dá conta, tornam-se tristes e sem cor.

– Já pode soltar minha mão. – A música soou mais uma vez – E agora me deixe no mar.

Senti um calafrio e uma dor de cabeça que me fez ficar tonto. Eu segurava os tentáculos do Peixe com as duas mãos, e só então percebi que não conseguia respirar. Meus olhos arderam e notei que estava debaixo d’água.

Soltei os tentáculos viscosos da criatura e nadei desesperadamente para cima, já quase não aguentando segurar o fôlego. No último instante eu parei faltando centímetros para alcançar a superfície e olhei para baixo. O Peixe agora era um mísero ponto verde tão longe quanto o sol sobre minha cabeça, até que sumiu na escuridão profunda.

Quando imergi com a boca aberta e respirando ofegante, sacudi a cabeça para tirar o excesso de água dos cabelos e olhei ao meu redor, conseguindo identificar Verônica a apenas alguns metros dali. Nadei até lá e vi Martins assustado me olhando do convés.

– Você perdeu a cabeça, Roberto? Como pôde jogá-lo na água daquela maneira? – Gritou enquanto jogava uma corda para que eu subisse à bordo.

–Acho que podemos voltar para casa, Martins. – Falei enquanto pisava no convés outra vez.

Dentro da embarcação, percebi que Verônica estava afundando. Não naufragando como vítima de acidente, mas sim puxada para baixo de uma maneira sobrenatural.

Com a ajuda de Martins, lancei no mar o único bote que tínhamos e abandonei Verônica somente com as roupas encharcadas que vestia. Ele trouxe os remos e contemplamos a embarcação submergir lentamente.

O que aconteceu daí pra frente não é tão importante. Obviamente voltamos para a costa da forma mais precária possível, desidratados e famintos.

No início fiquei de boca fechada, tudo o que minha noiva e amigos sabiam é que havíamos perdido três tripulantes durante a tempestade e que um incêndio havia começado na embarcação por conta de um raio, obrigando eu e Martins a fugirmos no bote. E assim tudo poderia voltar ao normal.

Admito que foi difícil para mim, nunca tive coragem suficiente para navegar novamente, sofri com insônia durante alguns meses e, quando dormia, era assombrado por pesadelos terríveis, revivendo aqueles últimos momentos assombrosos com Benedito. Durante algumas semanas eu me reunia regularmente com Martins a fim de conversarmos sobre como estávamos lidando com tudo. Ele continuou no ramo da pescaria, mas alguns anos depois, quando paramos de nos reunir, eu soube através de sua mãe que ele cometera suicídio, e que nos últimos dias em que o havia visto ele se queixava de vozes e pesadelos em sua cabeça.

Fiquei ligeiramente perturbado com a notícia, afinal meu casamento estava próximo e eu não podia perder o controle. Apesar dos pesadelos, eu já havia superado as crises de ansiedade e a insônia, mas temia que a loucura viesse ao meu encontro sorrateiramente. Rezei muito para que isso não acontecesse, e de fato não aconteceu.

Durante toda a minha vida o que houve após aquela tempestade a bordo da Verônica foi meu segredo mais precioso. Fui para o interior do estado, abandonando o antigo sonho de ter meu próprio barco pesqueiro para me dedicar à agricultura. Por tanto tempo não vi o mar que agora que estou em meus últimos dias de vida, já esqueci como é boa aquela vista. Também esqueci a Verônica e seus falecidos tripulantes. Por fim, tive a minha tão esperada vida normal de volta. Criei filhos, construí uma boa casa, e apesar de não ter feito muito dinheiro, nunca passei fome.

É curioso como somente agora, no fim de minha existência, esta história está mais ativa em minha memória do que jamais esteve. Costumo sonhar e repassar tudo aquilo quando estou dormindo, algo que me levou a escrever o maior segredo que possuía nesta caderneta, aliviando minha consciência de alguma maneira.

É com a mão cansada de tanto escrever que me despeço. Não só daquele que foi forte o suficiente para ler meu relato até aqui, mas também de todo o mundo, pois tenho a estranha sensação em meu peito de que irei rever o Peixe em breve, basta fechar os olhos.

Mais Uma Taça de Vinho

No final da estrada havia uma famosa estalagem. Apesar da aparência decadente e, de certa forma, asquerosa, O Repouso dos Viajantes era o local predileto daqueles que trafegavam entre as cidades de Carvalho do Norte e Carvalho do Sul. Ela estava quase sempre abarrotada de clientes que geralmente elogiavam a boa comida. Apesar das constantes aparições de ratos e baratas, o Velho Reone mantinha o local livre de baderneiros e brigas, pois todos temiam os danos que a poderosa espingarda de cano duplo poderia causar caso fosse retirada do baú que a mantinha escondida.

O episódio em questão ocorreu no início da noite de um dia que subitamente adotou um clima frio e céu fechado. Alguns hóspedes bebiam e comiam nas cadeiras do bar, conversavam como costumavam fazer, até que uma figura estranha surgiu vinda da recepção carregando malas e com botas enlameadas.

– Desculpe-me, senhor. Não recebemos hóspedes depois das seis. – Disse o Velho Reone de trás do balcão do bar – Devo ter esquecido de trancar a porta da frente.

As pessoas ao redor olharam discretamente, mas continuaram fingindo fazer o que faziam momentos atrás.

– Eu sei, eu sei… – O homem foi dizendo enquanto se aproximava do balcão e largava as malas ao lado de um banquinho de madeira. – Mas você abrirá uma exceção para mim, meu caro.

– E por que, em nome de Deus, eu abriria uma exceção? Sendo que esta regra foi imposta há mais de quarenta anos.

– Porque sou o Diabo. – Falou com simplicidade e um meio sorriso no rosto.

Quase todos que estavam no bar correram em pânico derrubando tudo em seu caminho, exceto por alguns rapazes curiosos que se esconderam atrás das mesas tombadas.

– Você me parece só um homem comum. – O Velho Reone falou com uma voz calma, mas apertou o crucifixo que usava pendurado no pescoço só por precaução.

– Eu admiro a espontaneidade dos homens, às vezes gosto de ser visto como um.

– É mentira!

– Mas é claro que é. Eu sou o mestre das calúnias. – Disse enquanto aconchegava seu traseiro no banquinho – Quero uma taça de vinho, por favor.

– Não vou servir bebida a um louco… – Velho Reone resmungou.

– E quanto a um louco com dinheiro? – O homem colocou uma grande moeda de ouro no balcão, que foi imediatamente pega e estudada pelo estalajadeiro – Não se preocupe, é verdadeira, meu caro. Apesar de ser conhecido e temido por meus supostos poderes, criar moedas de ouro falsas não é a melhor de minhas habilidades.

Um tanto quanto relutante, mas impressionado pela moeda de ouro que acabara de receber, o Velho Reone serviu  numa de suas maiores taças o vinho mais caro da adega.

– Excelente! Ouvi falar muito bem do vinho daqui, meu caro. – Disse o Diabo, que deu uma golada na bebida – Muito bom, muito gostoso… Sirva os dois jovenzinhos escondidos atrás da mesa também.

Miguel e Gabriel se entreolharam e congelaram agachados atrás da mesa. Tinham certeza de que o estranho não havia olhado para trás durante a correria que houve, de modo que não poderia saber de seu esconderijo, apesar de ser precário.

– Vamos, levantem-se e venham até aqui. – Ele insistiu.

Os dois rapazes, que já haviam se arrependido por não terem corrido gritando como todos os outros, se levantaram lentamente e caminharam até o balcão, apoiando os cotovelos sobre a madeira.

– Como se chamam, meus caros?

– Miguel. – Disse o de cabelo castanho e sobrancelhas grossas.

– Gabriel. – Sussurrou o mais baixo com uma cabeleira loira.

– Prazer em conhecê-los, creio que já sabem o meu nome. – E sorriu, voltando-se para o estalajadeiro – Sirva duas taças de vinho, uma para Gabriel, e outra para Miguel.

– Não tenho dinheiro, senhor. – Miguel disse, fazendo um sinal para que o Velho Reone não pegasse a bebida.

– Nem eu. – Gabriel declarou apalpando os bolsos vazios.

– Não há problema algum nisso. – Disse o Diabo enfiando uma das mãos no bolso do casaco e tirando outras duas moedas de ouro – Aqui está.

Com um tilintar ele colocou as duas peças redondas sobre o balcão e as empurrou na direção do Velho Reone, estupefato.

– Então quer dizer que o Diabo é uma criatura caridosa? – Velho Reone falou enquanto guardava as novas moedas no bolso de seu próprio casaco.

– De maneira alguma, meu caro. Sou um ser desprezível. – Respondeu enquanto bebia mais de seu vinho.

– Então por que presenteia estes rapazes com meu mais caro vinho? – Disse no mesmo instante em que servia as taças de Miguel e Gabriel.

– Ora! Permita-me responder a sua pergunta com outra pergunta. Deveria um homem sedento olhar outro homem saciar sua sede com bebida em abundância?

– Humm… – O Velho Reone pensou por alguns segundos – Acredito que isso seria razoavelmente desproporcional.

– Pois bem! – O Diabo respondeu animado – Então considere-me o primeiro a exigir direitos iguais, meu caro!

Os quatro se encararam por breves instantes e caíram na gargalhada.

Uma Consciência Sem Direção

 Acredito que tenha sido mais ou menos à meia-noite. Lamento, mas por mais que eu me esforce, não consigo me lembrar de como chegamos até o carro. Me recordo de ter ido trabalhar no escritório como num dia qualquer, de ter entregado os relatórios e os pedidos pendentes para meu chefe insuportável, mas não faço ideia do que fiz logo depois que saí do edifício. No banco de trás estavam Beatrice, com a maquiagem do rosto borrada e desmanchando como uma vela derrotada pelo fogo, e ao lado dela Erick, meio calvo e desleixado, ele andava ocupado demais e nunca parecia feliz. Eu estava no banco do carona, pensativo. Francis dirigia. E ele estava muito bravo.

Eu juro que tentei, busquei nos cantos mais remotos de minha memória, mas não recordo o motivo da briga e a razão de todos estarem irritados comigo. Chovia muito, o que explicava a maquiagem se desmontando no rosto de Beatrice, mas àquela altura ela parecia não se importar. Todos estavam zangados, inclusive eu, com eu mesmo.

Francis guiava o volante usando apenas a mão direita, e roía as unhas da mão esquerda. A chuva estalava na lataria do carro cada vez mais forte, a tempestade ia piorando, até que não consegui manter aquele silêncio sufocante. “Eu quero saber no que tá pensando.” falei. “Foda-se o que você quer saber. Você precisa esquecer o que sabe. Esse é o seu problema. Você precisa esquecer o que acha que sabe sobre a vida, sobre amizade, e principalmente sobre nós três.” ele respondeu falando tão rápido que quase me perdi. “O que?” eu disse enquanto o encarava “O que você quis dizer com isso?”.

Ele não me respondeu. A estrada pela qual seguíamos estava pouco movimentada, mas ainda assim alguns carros passavam de vez em quando. Francis colocou as duas mãos no volante e ultrapassou a faixa da pista, seguindo a 120km/h na contramão. “O que você tá fazendo?” perguntei no mesmo instante. “Pessoal, o que vocês gostariam de fazer antes de morrer?” ele perguntou para Beatrice e Erick. “Pintar um auto-retrato”, respondeu Beatrice, esperançosa. “Construir uma casa” Erick disse. Para minha surpresa nenhum deles questionaram a ação de Francis, que, naquele momento, olhava fixamente para mim. “E você?” indagou. Eu estava assustado e já podia ver os faróis de outro veículo vindo em nossa direção. “Eu não sei! Não vem nada na minha cabeça. Agora volta pra faixa da direita!” e puxei o volante para a direita. Por pouco não colidimos com um caminhão, que passou buzinando.

Os limpadores do pára-brisa estavam sendo sobrecarregados pela chuva, e a visão da estrada ficava ainda mais turva. “Você tem que saber a resposta para essa pergunta!” Francis gritou logo depois “Se você fosse morrer agora mesmo, como se sentiria sobre sua vida?”. Eu sempre senti um pouco inveja de Francis. “Eu não sei. Eu não sentiria nada bom sobre minha vida. É isso que quer ouvir? Beleza.” eu falei. Ele não gostou da minha resposta e voltou para a contramão. Um carro que vinha naquele instante quase colidiu frontalmente com nós, mas jogou o carro para o acostamento, desviando da gente, e os outros dois carros que vinham logo atrás fizeram o mesmo. “Volta pra direita! Meu Deus do céu! Cuidado!” eu não parava de gritar essas coisas “Jesus Cristo! Vai se fuder, Francis! Vai nos matar!”, Beatrice e Erick pemaneceram quietos enquanto eu e ele discutíamos. “Eu já me cansei de você e suas palhaçadas!”.

Eu puxei o volante e joguei o carro para a direita, fazendo com que saíssemos da contramão. Francis disse “Beleza, cara. Beleza.” e sorriu nervosamente. Por um segundo pensei que ele não faria mais nenhuma besteira, mas ele havia tirado as mãos da direção do veículo, que agora seguia seu próprio rumo pela pista escorregadia. “Para com isso!” eu gritei “Segura o volante! Segura o volante!”. Ele suspirou diante do meu desespero dizendo “Olha pra você… olha pra você!” e eu não entendia. “Você é patético!”, e eu perguntei “Por que?”. Ele não me respondeu de imediato, apenas colocou o cinto de segurança. Beatrice e Erick o imitaram, e eu acabei fazendo o mesmo, pois até então não havia notado que estava sem. “Algumas vezes você precisa deixar rolar…” Francis disse, sem as mãos no volante.

Devo ter me distraído, mas eu só conseguia encarar Francis e repetir a última frase dele em minha cabeça dezenas de vezes por segundo numa tentativa fútil de decifrá-la. E antes que eu percebesse, o carro em que estávamos escolheu por conta própria ficar longe da contramão e seguir ainda mais pela direita, onde encontrou o fim da estrada, e o início de uma ribanceira encharcada. E assim capotamos. Não me lembro quantas vezes, apenas que foram muitas. Acordei horas depois, num hospital, e conversei com os policiais sentado em volta da cama. Eu perguntava descontroladamente sobre meus amigos.

“Você estava sozinho, senhor” foi tudo o que me responderam.

A Fera de Elegios – Parte 1

O inverno parecia não ter fim. Dia e noite a neve caía e acrescentava uma nova camada ao chão, tornado a caminhada difícil. Assim era a maior parte dos anos na ilha de Elegios, onde se dizia que as estações mais frias duravam o dobro de tempo. Elegios tinha uma extensão incomum para uma ilha, sendo a maior conhecida, entretanto, grande parte de suas terras eram inabitadas devido ao frio insuportável. No extremo norte, nem mesmo os animais arriscavam-se aventurar, pois os ventos cortavam as bochechas como lâminas e os dedos congelavam rapidamente. Mas na região sul era possível viver sem muitos problemas, onde a criação de gado nariz-azul predominava e alguns vilarejos pesqueiros faziam a economia fluir para o Continente.

A Toca da Raposa era uma famosa estalagem localizada na principal rua de Tremilar, a capiral de Elegios. Tratava-se de uma grande construção de dois andares, composta por troncos de madeira e com o interior completamente coberto de couro. Logo acima da porta de entrada havia uma pele de raposa pregada a madeira, onde o nome da estalagem estava escrito com ferro quente. No térreo uma lareira ajudava a manter os fregueses aquecidos, e lá, numa das mesas redondas, estava Silamus Bertio, segurando uma caneca de aguardente na mão direita.

É ele mesmo, não é? – Sussurrou um homem para o outro, numa mesa não muito longe de Silamus.

Não tenho certeza. Ouvi dizer que ele tinha perdido uma orelha no ano passado, para uma criatura do mar. – Respondeu o segundo indivíduo, com um tapa-olho desbotado cobrindo a órbita esquerda.

Silamus era um famoso mercenário, e provavelmente um dos mais habilidosos de seu tempo. Apesar de ter nascido no Continente, a família Bertio se mudou para a ilha de Elegios fugindo de dívidas e ameaças de morte. O povo elegiense nutria uma certa aversão a estrangeiros, talvez pelo fato de serem explorados por impostos da Coroa e também por ainda guardarem feições físicas de antecessores distantes, tendo a pele mais branca que o comum, traços faciais fortes, e uma altura levemente superior à de outras etnias.

Mesmo tendo realizado suas primeiras façanhas naquela ilha, Silamus sempre sofreu com os preconceitos xenofóbicos de seus habitantes. É claro que haviam exceções, mas ele somente consagrou sua reputação no Continente, onde capturou Ivan, o Terrível, esfolou a Grande Cobra de Carpuseis, queimou o Vampiro de Dubrava, e matou inúmeras bestas errantes. Lá, de onde suas raízes vinham, o passado escuro da família Bertio havia sido ofuscado pela glória de Silamus, hoje sendo o último membro em vida da mesma, desconsiderando os bastardos postos no mundo pelo mercenário viajante.

Traga mais – Silamus disse para o servente da estalagem, e encostou o ombro no couro da parede, descansando o torso.

Ele deu uma última golada na bebida, encontrando o fundo do recipiente. O líquido quente que descia por sua garganta ajudava a afastar o frio, e apesar da ardência no início, era fácil se acostumar. E depois de uma longa viagem marítima até Elegios, tudo o que o mercenário desejava era se embriagar e dormir, para que no dia seguinte pudesse resolver seus assuntos na ilha.

Há três dias, quando estava no Continente rodeado de prostitutas e jogando seu dinheiro ao vento, Silamus recebeu uma mensagem da terra onde crescera, uma carta amassada, que, julgando pelo seu estado de conservação, parecia ter passado por muitas turbulências antes de chegar ao destinatário. Estava assinada pelo ancião de um vilarejo elegiense implorando para que o caçador de monstros viesse e solucionasse o problema. Fenda do Oeste era o nome do lugar, onde a maior parte dos moradores criavam gado nariz-azul, típico da região.

O servente da Toca da Raposa trouxe uma garrafa arredondada e despejou a bebida na caneca de Silamus, que coçou a barba rala e continuou bebendo. Ele havia notado que os dois sujeitos não muito longe dali falavam dele, era um homem atencioso, mas pouco lhe importava, pois tinha noção de que aos olhos daquelas pessoas, ele era apenas um forasteiro e que quanto mais cedo partisse, melhor seria.

A pesada porta da estalagem se abriu e um forte vento entrou pela passagem, fazendo oscilarem as chamas da grande lareira. Uma figura coberta por um casaco de pele de urso entrou com os ombros encolhidos e um gorro de lã na cabeça. A barba cinzenta crescia desordenadamente abaixo do nariz, e as sobrancelhas grossas acima dos olhos azuis estavam pontilhadas com flocos de neve. O homem de aparência velha vasculhou o salão com os olhos, até que encontrou Silamus, e se dirigiu a ele.

Que bom que veio, Bertio – Disse com uma voz cansada assim que se aproximou.

Dificilmente recuso um trabalho que me pague bem, Ancião – Respondeu, e fez um sinal com a mão para que o recém-chegado sentasse no assento ao lado.

Ouvi boatos de uma confusão no porto… – Falou sem jeito – Espero que já esteja tudo resolvido.

A não ser que o capitão do barco queira quebrar o nariz de novo, está tudo resolvido.

Certo, certo… – Concluiu.

O Ancião sabia exatamente o que havia acontecido, pois o capitão do navio era seu neto, um homem bem ganancioso que resolvera cobrar o dobro do preço da viagem pela grande quantidade de bagagem que Silamus carregou.

Então, você escreveu dizendo que dezenas de narizes-azuis desapareceram, e outros foram encontrados mutilados. Alguém viu alguma coisa? – O mercenário perguntou.

Não, os ataques acontecem durante a noite, quando todos estão dormindo.

Com que frequência? – Disse logo depois de um longo gole de bebida.

Duas, três vezes por semana – Respondeu o velho coçando o queixo, com as pontas dos dedos escondidas entre a barba.

Silamus ficou em silêncio por um momento, pensando nas mil e uma hipóteses para o caso na Fenda do Oeste, mas já estava óbvio que o assassino de gado era um predador grande, já que o nariz-azul era uma espécie bovina de porte grande, couro duro, e força estonteante, um animal difícil de matar aos montes numa única noite.

– É uma pena que em Elegios neve tanto… Se houvessem pegadas eu poderia ter uma pista muito maior. – Silamus comentou, coçando o nariz com o polegar.

– Mas como pretende encontrar a criatura, Silamus? – Falou, com um certo temor nos olhos.

– Mostre-me o último lugar em que ela esteve. – E se levantou.

– É claro, vamos antes que a nevasca chegue.

Ambos se levantaram. O velho ajeitando os panos que cobriam seu corpo, e Silamus deixando algumas moedas de bronze no balcão da estalagem. O estalageiro murmurou um obrigado e pediu gentilmente para que a porta fosse fechada.

A Unidade V-101 – Parte II

A unidade V-101 interpretou a mensagem como um acontecimento inédito. Todos os dados emitidos por sua memória interna levavam a crer que o QG estava desabilitado, mas de alguma forma uma resposta havia sido recebida por ele. Antes de entrar no modo de hibernação, 101 decidiu executar um protocolo de adiamento emergencial, já que seu primeiro reparo havia sido há mais de dez anos. E assim, ele reativou parte de seus circuitos e manteve o motor principal ativado.

Unidade V-101 para Quartel-General.

QG na escuta.

Os textos de mensagem apareciam no visor do 101 numa tela sobre seu campo de visão. Ele era capaz de compreender mensagens em áudio em até dezoito idiomas diferentes, assim como também era capaz de lê-las caso houvesse alguma interferência nas ondas sonoras.

Estou confuso. Creio que o apoio deveria ter vindo quando solicitado. Há algo que eu possa fazer para que não ocorra um atraso tão longo novamente? – A voz de V-101, apesar de metálica e monótona, era bem semelhante à de um homem adulto muito tranquilo.

– Você não faz nem ideia, não é? Pobre máquina. Na verdade, ainda não sei como você pode existir. Busquei sua ficha técnica no meu computador e aqui diz que seu processo de fabricação ainda nem iniciou. Você faz parte de uma segunda remessa de robôs que nem chegou a sair dos papéis.

Isso é impossível, QG. Estou operante, apesar de danificado.

Impossível! Exato! – Gritou com uma voz juvenil – Mas o fato é que quando reativei o meu computador vi seu pedido de reparos… Espera aí, tem uma nota de observação na sua ficha. – O sujeito ficou alguns minutos em silêncio – Você é diferente dos outros. Ao contrário deles, não foi programado apenas para matar infectados. Vou experimentar uma coisa… Ativar diretriz número um.

Quando terminou a sentença, os sinais de sua voz chegaram ao V-101 como um comando de alta prioridade, e ele rapidamente passou a pensar de uma maneira completamente diferente. Não estava mais preocupado com o sumiço dos infectados, ou com a ausência de luz solar. Seu banco de dados parecia ter liberado informações ocultas. De repente, V-101 sabia o nome e feições de pessoas importantes, sabia seus respectivos cargos, conhecia toda a estrutura do QG e como chegar até lá, dentre outras coisas. Inúmeros alertas e mensagens de aviso surgiram em seu visor. “Quartel-General em risco”, “câmaras de sono induzido violadas”, “comportas principais danificadas”, “proteger a raça humana”, “proteger o Comandante Sênior”. Frases como esta apareciam a todo instante, e tudo o que o cérebro positrônico de 101 queria era solucionar estes problemas.

V-101 para Comandante Sênior. Estou a caminho. Quartel-General em risco.

Isso era tudo o que eu queria ouvir. Obrigado por existir, 101. – Ele riu, fazendo surgir um “há-há-há-há” entre os alertas que apareciam para o robô – Você é um guardião, não um exterminador. E… Pera aí. Você me chamou de Comandante Sênior?

Sim, senhor. – Respondeu V-101, que tentava se mover o mais rápido possível na direção do Quartel-General, agora que subitamente sabia a rota mais rápida para tal lugar. – Você é Andrew Lynch, inicialmente registrado como Monitor da Seção 17. Lamento dizer isto, senhor, mas você é o último ser humano consciente no QG.

Uma das muitas medidas de ordem e segurança criadas durante a construção da base central que acompanhava os trabalhos dos Vigilantes era sempre ter alguém no comando de tudo, como um presidente. Desta forma o caos poderia ser evitado e o pânico reduzido. De acordo com as previsões orquestradas pelos avançados computadores do Quartel-General, levaria cerca de trinta até quarenta anos para a total erradicação dos infectados pelo vírus N-17 do continente, um período de tempo longo demais para manter milhares de pessoas alimentadas e vivendo em condições não-deploráveis numa estação subterrânea. Sendo assim, todas aquelas pessoas sobreviventes foram colocadas em câmaras de sono induzido, por onde descansariam por quarenta anos, com exceção de uma equipe de aproximadamente oitenta pessoas que seria crucial para o funcionamento contínuo dos Vigilantes e de todo o suporte que eles necessitavam. Esta equipe trabalhava incessantemente por cinco anos, e então voltavam para suas câmaras e eram substituídos por uma segunda equipe, e assim consecutivamente. Andrew Lynch fazia parte de uma nova equipe que acabara de substituir a anterior, porém, não havia ninguém além dele por lá, o que, de acordo as providências de segurança, fazia do singelo Monitor Lynch o Comandante Sênior, concedendo a ele todo o poder sobre o QG.

Estarei aí em menos de quinze minutos, senhor. – Disse V-101 após um longo período de silêncio. – Não saia de onde está.