A Unidade V-101 – Parte I

Apesar da avenida estar em péssimas condições, com carcaças de veículos e montes de entulho por toda parte, a unidade V-101 se movia pacientemente, mexendo suas poderosas pernas metálicas com lentidão. Com os braços cobertos de placas de proteção, o robô contraía seus cabos de força e fazia os rolamentos do ombro girarem para empurrar qualquer obstáculo que poderia impedir sua passagem, causando um estrondo metálico que podia ser ouvido à quilômetros de distância graças ao silêncio em que a cidade estava naquela tarde de domingo. No peitoral repleto de sangue seco e fuligem, podia-se ler “Vigilante 101”, mas não era assim que ele descobrira sua identificação, afinal de contas a grande câmera esférica que emulava um olho gigante acima do torso de metal não era capaz de ler formas de escrita humana, não fazia nada além de decidir a direção na qual o 101 deveria atirar, de forma que quando uma dúvida surgia, o Vigilante solitário consultava seu banco de dados, este recheado de números e códigos binários, linguagem a qual ele era muito familiarizado. O banco de dados era o mundo do 101, lá estava todo o conhecimento que ele foi capaz de armazenar durante seus vinte e cinco anos de serviço, que por um simples acaso estava se completando naquela tarde, enquanto ele abria passagem por uma avenida destruída. Seguindo o protocolo de segurança, de quatro em quatro horas o robô deveria checar sua integridade, e assim o fez, parando de andar subitamente e tendo sua visão obstruída por milhares de números que formavam o relatório de avaliação. Metralhadora giratória (membro esquerdo): Operante. Metralhadora giratória (membro direito): Avariada. / Ação recomendada: Contatar suporte. Caixa de munição: 114 unidades. / Ação recomendada: Contatar suporte. Motor principal: Operante. Câmera de visão: Operante. Cérebro positrônico: Operante Emissor de comandos: Operante. Projetor de voz: Operante. Antena de comunicação: Operante. Mecanismos de locomoção: Operante. Placas fotovoltaicas: Operante. Placas de proteção: Superficialmente danificadas. E assim que acabou, ele seguiu em frente. O relatório continuava o mesmo há anos, e há anos o 101 enviava um sinal para o Quartel-General requisitando um drone de reparos, mas nunca era atendido. A metralhadora acoplada ao braço esquerdo fora destruída por um desabamento há seis anos, por pouco ele não havia sido completamente esmagado, o que era um perigo constante. De acordo com o banco de dados, dezenove Vigilantes haviam sido vítimas de desabamentos, obrigando o 101 a ser mais cauteloso ao entrar nos edifícios abandonados da cidade. Ele também devia preocupar-se com o metrô, onde onze Vigilantes ficaram perdidos, e, incapazes de recarregarem suas baterias com energia solar, acabaram desativados para sempre no subsolo. Da lista de cem unidades, apenas três robôs ainda estavam operando. Por mais que tivesse procurado uma resposta no banco de dados, o 101 nunca encontrou o motivo pelo qual a lista terminava no Vigilante-100, e não no Vigilante-101, como deveria ser. Quando finalmente virou a esquina e entrou numa rua menor e com menos obstáculos, 101 prosseguiu sua caminhada sem rumo entre vários corpos esqueléticos, a maioria composta apenas de uma pele acinzentada e os ossos. Manchas de sangue na calçada já tinham adotado uma coloração negra, e havia buracos de tiro em todos os cantos. O 101, assim como seus semelhantes, havia sido designado para exterminar todos os seres humanos contaminados pelo vírus N-17 que encontrasse, que eram facilmente identificados pela câmera de visão. Ele matou vários deles, de acordo com o banco de dados, o número recorde havia sido alcançado há vinte anos, atingindo a marca de cento e oitenta e dois ao fim do dia. Entretanto, a média de infectados mortos por dia foi diminuindo absurdamente, e há mais de sete anos o 101 não faz um único disparo. O robô deveria ficar grato por isso, já que sua caixa de munição está quase vazia e o Quartel-General não mais responde seus pedidos de suporte. O último drone de reparos que veio em seu auxílio foi há treze anos, fez um bom trabalho consertando uma das placas fotovoltaicas e reabastecendo a munição, e eles insistiam em dizer que os Vigilantes deveriam ser mais cuidadosos. A visão do 101 vasculhava os estabelecimentos comerciais daquela rua, todos com vitrines estraçalhadas e vegetação lutando para crescer entre rachaduras no chão. Ao lado de um ônibus tombado estava um Vigilante caído, de braços abertos e com a câmera de visão desligada. 101 se aproximou e sua câmera logo o identificou como sendo a unidade V-55. Inutilizada por falta de energia há cinco anos. Após alguns minutos analisando o robô desativado, 101 notou que metade das placas de captação de energia estavam destruídas, e a outra metade coberta por uma grossa camada de fuligem. Provavelmente o 55 havia requisitado o suporte, mas não foi atendido. Pelo menos nem todos os Vigilantes desativados por falta de energia estavam no metrô, pensou 101, guardando tal informação no banco de dados. Andou por mais uma hora, lento como de costume. Nenhum sinal de infectados. Nenhum sinal de humanos. Nenhum sinal das outras unidades. 101 já estava acostumado a lidar com dias calmos, e até mesmo sentia falta de quando deixava seus desaparecidos superiores satisfeitos com os resultados do dia. O sol ia embora lentamente, e agora o céu estava quase totalmente escuro. Normalmente as baterias dos Vigilantes suportam operar durante a noite inteira, desde que estejam carregadas, mas este tinha sido um dia pacífico, e o protocolo de segurança exigia que em dias como este os robôs deveriam entrar em modo de hibernação para economizar energia. 101 preparava-se para desligar o motor principal quando recebeu uma mensagem inusitada. – Aqui é Quartel-General para a unidade V-101. Estamos enviando um drone para seu auxílio. Chegada prevista em quatro horas. Desculpe a demora, grandalhão.

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