Katyusha

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Frente Oriental, Batalha de Rostov, 1941.

Dezoito soldados abrigavam-se naquela estreita trincheira que perdia cada vez mais sua profundidade devido a neve. O Sargento Nikolai era jovem, mas experiente o bastante para liderá-los naquela batalha, e assim como seus camaradas, tinha uma carabina carregada em mãos.

Em frente havia apenas um campo aberto, uma direção arriscada de seguir, pois não muito além um amontoado de árvores servia de cobertura para os alemães, que no momento aguardavam apenas o avanço do inimigo para dispararem suas metralhadoras.

Aguardem o apito – Disse Nikolai, tentando repreender os soldados que levantavam a cabeça para espiar o campo. – Me dê um cigarro, Gagarin.

Gagarin era um soldado loiro e de olhos azuis, tinha dezessete anos e isso fazia dele o mais jovem do esquadrão. Ele enfiou a mão num dos bolsos do casaco acizentado e tirou dois cigarros amassados, com tabaco saindo do filtro. Com um isqueiro acendeu os dois cigarros na própria boca, um véu de fumaça saiu de suas narinas. Passou um deles para o Sargento, que agradeceu e deu uma tragada profunda.

Uma onda de explosões cortaram o ar. Tiros de morteiro caíam por toda a parte. Os alemães certamente queriam ver as tropas russas se movimentando. Além do esquadrão de Nikolai, outros quinze jaziam escondidos em trincheiras naquela área, apenas aguardando o apito do Coronel Kolmogorov soar para o avanço começar. As munições de morteiro caíam pesadas no chão levantando uma massa de neve e terra quando explodiam, causando um estrondo ensurdecedor para quem estivesse próximo. Uma delas caiu ao lado da trincheira, destruindo alguns sacos de areia e arremessando com velocidade uma pedra do tamanho de uma maçã, que atingiu em cheio a boca do Sargento Júnior Vladimir.

Blyat! – Ele praguejou, cuspindo sangue na neve branca.

Está tudo bem, camarada Vladimir? – Nikolai perguntou, tentando analisar o ferimento.

Antes da guerra, Vladimir era um fazendeiro durão, e desde que ingressou no esquadrão mostrou ser um homem que não se abalava com facilidade. O Sargento Júnior fez que sim com a cabeça e enfiou dois dedos na boca, arrancando um dente que fora quebrado com a pancada.

Os tiros de morteiro cessaram. As equipes alemãs deviam estar trabalhando arduamente para recarregá-os o mais depressa possível nesse instante. E então, o apito soou.

As tropas soviéticas emitiram um urro uníssono e saíram das trincheiras num pulo quase sincronizado. O Coronel mantinha o apito nos lábios, soprando-o com todo o fôlego que conseguia reunir. Alguns soldados atreviam a executar alguns disparos, mas o inimigo estava favorecido pelas árvores, e, até que os russos estivessem numa posição mais rente, seus disparos seriam como tiros no escuro.

Emergiu das árvores além do campo pelo qual os soviéticos avançavam o típico som de uma metralhadora. As rajadas de munição zuniam pelos ares, felizmente longe do esquadrão de Nikolai. Gagarin olhou para o lado direito e viu à uns vinte metros de distância outro esquadrão avançando ferozmente. Um dos soldados de lá erguia a bandeira vermelha da União Soviética, o que fazia deles um alvo de prioridade para os alemães.

As metralhadoras inimigas continuaram a despejar sua fúria, mas não eram suficiente para impedir o avanço por completo. Gagarin observava o esquadrão ao lado, que nesse momento já estava mais à frente, lutando para atravessarem uma série de árvores tombadas e cercas de arame farpado destruídas por um bombardeio aéreo no dia anterior. Num piscar de olhos, Gagarin pôde ver pelo menos dez daqueles homens caírem, alguns deles tentaram se levantar mesmo estando feridos, mas falharam quando mais rajadas de tiro foram lançadas. O porta-bandeira seguiu por mais alguns metros, acompanhado de cinco ou seis camaradas, mas não demorou para que estes fossem derrubados também, com sangue escorrendo pelos uniformes e a bandeira ao chão.

Havia um leve declive não muito à frente que poderia servir de cobertura para os soviéticos, de onde poderiam retribuir os disparos, mas antes que algum dos esquadrões chegasse lá, os morteiros retornaram, deixando a situação ainda menos favorável para os russos. O som do apito cessou. Talvez o Coronel tivesse sido atingido. Talvez as explosões o estivesse abafando. Mas naquele momento todos já estavam em seu limite, prestes a perderem as esperanças.

Por aqui! – Nikolai gritou, atirando-se num buraco de bomba.

Haviam outros buracos pequenos ao redor, todos causados pelas bombas do dia anterior, onde agora os soldados de Nikolai buscavam abrigo.

Quantos perdemos? – Nikolai perguntou a Vladimir, que dividia o mesmo refúgio que ele.

Mastev. Sergey. Invanenko. E Chekhov é este homem que você tá escutando gritar no buraco ao lado – Respondeu, fazendo um sinal para que Nikolai ouvisse os gritos de dor.

Estamos perdidos! – Algum soldado gritou.

Senhor… O que faremos? – Disse Vladimir, com um tom de voz que Nikolai nunca havia visto nele antes.

O Sargento Nikolai ficou em silêncio por alguns segundos. Ele estava abraçado em sua carabina e fitava o chão com seus grandes olhos negros.

A ajuda virá… – Sussurrou, e Vladimir pensou que o sujeito estava catatônico.

E Nikolai começou a cantar.

“Floresciam macieiras e pereiras

Pairava a névoa sobre o rio

E para a margem saía Katyusha

Para a margem alta, para a ribanceira”

As explosões de morteiro ainda estavam presentes, assim como o uivo das metralhadoras, sobrepondo a voz do Sargento. Mas ele prosseguiu, com a voz ainda mais alta.

“Ela surgia entoanto uma canção

Sobre a águia cinzenta das estepes

Dedicada àquele que amava

Dedicada àquele cujas cartas guardava”

Os soldados por perto olharam confusos para Nikolai, que agora estava de pé e com os braços erguidos para o alto, ignorando o perigo. Curiosamente, um ruído diferente veio pelos ares. Faixas escuras desciam do alto, adicionando listras de fumaça negra ao céu azul. Foguetes caíam sobre as árvores, explodindo e destruindo tudo que tocavam. Galhos foram lançados para o alto, árvores caíram, os tiros de metralhadora cessaram, e os russos gritaram de alegria, erguendo suas carabinas para cima e se juntando a Nikolai na cantoria.

“Ó, és a canção de uma moça

Voe atrás da luz viva do sol

E ao combatente na distante fronteira

Katyusha manda saudações

 

Que ele se lembre da humilde moça

Que ele ouça como ela canta

Que ele conserve nossa terra natal

Assim como Katyusha o amor conservará

 

Floresciam macieiras e pereiras

Pairava a névoa sobre o rio

E para a margem saía Katyusha

Para a margem alta, para a ribanceira”


Nota do autor

Este conto foi inspirado pela música “Katyusha”, escrita em 1938 e cantada pela primeira vez em 1941 por garotas de uma escola de Moscou como despedida às tropas que marchavam para lutar contra a Alemanha Nazista na Frente Oriental. A música passou a ser associada com os veículos BM-8, BM-13, e BM-31, todos lançadores de foguetes que coincidentemente receberam o nome de Katyusha.

Ouça a música cantada em russo.

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