A Unidade V-101 – Parte II

A unidade V-101 interpretou a mensagem como um acontecimento inédito. Todos os dados emitidos por sua memória interna levavam a crer que o QG estava desabilitado, mas de alguma forma uma resposta havia sido recebida por ele. Antes de entrar no modo de hibernação, 101 decidiu executar um protocolo de adiamento emergencial, já que seu primeiro reparo havia sido há mais de dez anos. E assim, ele reativou parte de seus circuitos e manteve o motor principal ativado.

Unidade V-101 para Quartel-General.

QG na escuta.

Os textos de mensagem apareciam no visor do 101 numa tela sobre seu campo de visão. Ele era capaz de compreender mensagens em áudio em até dezoito idiomas diferentes, assim como também era capaz de lê-las caso houvesse alguma interferência nas ondas sonoras.

Estou confuso. Creio que o apoio deveria ter vindo quando solicitado. Há algo que eu possa fazer para que não ocorra um atraso tão longo novamente? – A voz de V-101, apesar de metálica e monótona, era bem semelhante à de um homem adulto muito tranquilo.

– Você não faz nem ideia, não é? Pobre máquina. Na verdade, ainda não sei como você pode existir. Busquei sua ficha técnica no meu computador e aqui diz que seu processo de fabricação ainda nem iniciou. Você faz parte de uma segunda remessa de robôs que nem chegou a sair dos papéis.

Isso é impossível, QG. Estou operante, apesar de danificado.

Impossível! Exato! – Gritou com uma voz juvenil – Mas o fato é que quando reativei o meu computador vi seu pedido de reparos… Espera aí, tem uma nota de observação na sua ficha. – O sujeito ficou alguns minutos em silêncio – Você é diferente dos outros. Ao contrário deles, não foi programado apenas para matar infectados. Vou experimentar uma coisa… Ativar diretriz número um.

Quando terminou a sentença, os sinais de sua voz chegaram ao V-101 como um comando de alta prioridade, e ele rapidamente passou a pensar de uma maneira completamente diferente. Não estava mais preocupado com o sumiço dos infectados, ou com a ausência de luz solar. Seu banco de dados parecia ter liberado informações ocultas. De repente, V-101 sabia o nome e feições de pessoas importantes, sabia seus respectivos cargos, conhecia toda a estrutura do QG e como chegar até lá, dentre outras coisas. Inúmeros alertas e mensagens de aviso surgiram em seu visor. “Quartel-General em risco”, “câmaras de sono induzido violadas”, “comportas principais danificadas”, “proteger a raça humana”, “proteger o Comandante Sênior”. Frases como esta apareciam a todo instante, e tudo o que o cérebro positrônico de 101 queria era solucionar estes problemas.

V-101 para Comandante Sênior. Estou a caminho. Quartel-General em risco.

Isso era tudo o que eu queria ouvir. Obrigado por existir, 101. – Ele riu, fazendo surgir um “há-há-há-há” entre os alertas que apareciam para o robô – Você é um guardião, não um exterminador. E… Pera aí. Você me chamou de Comandante Sênior?

Sim, senhor. – Respondeu V-101, que tentava se mover o mais rápido possível na direção do Quartel-General, agora que subitamente sabia a rota mais rápida para tal lugar. – Você é Andrew Lynch, inicialmente registrado como Monitor da Seção 17. Lamento dizer isto, senhor, mas você é o último ser humano consciente no QG.

Uma das muitas medidas de ordem e segurança criadas durante a construção da base central que acompanhava os trabalhos dos Vigilantes era sempre ter alguém no comando de tudo, como um presidente. Desta forma o caos poderia ser evitado e o pânico reduzido. De acordo com as previsões orquestradas pelos avançados computadores do Quartel-General, levaria cerca de trinta até quarenta anos para a total erradicação dos infectados pelo vírus N-17 do continente, um período de tempo longo demais para manter milhares de pessoas alimentadas e vivendo em condições não-deploráveis numa estação subterrânea. Sendo assim, todas aquelas pessoas sobreviventes foram colocadas em câmaras de sono induzido, por onde descansariam por quarenta anos, com exceção de uma equipe de aproximadamente oitenta pessoas que seria crucial para o funcionamento contínuo dos Vigilantes e de todo o suporte que eles necessitavam. Esta equipe trabalhava incessantemente por cinco anos, e então voltavam para suas câmaras e eram substituídos por uma segunda equipe, e assim consecutivamente. Andrew Lynch fazia parte de uma nova equipe que acabara de substituir a anterior, porém, não havia ninguém além dele por lá, o que, de acordo as providências de segurança, fazia do singelo Monitor Lynch o Comandante Sênior, concedendo a ele todo o poder sobre o QG.

Estarei aí em menos de quinze minutos, senhor. – Disse V-101 após um longo período de silêncio. – Não saia de onde está.

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