A Fera de Elegios – Parte 1

O inverno parecia não ter fim. Dia e noite a neve caía e acrescentava uma nova camada ao chão, tornado a caminhada difícil. Assim era a maior parte dos anos na ilha de Elegios, onde se dizia que as estações mais frias duravam o dobro de tempo. Elegios tinha uma extensão incomum para uma ilha, sendo a maior conhecida, entretanto, grande parte de suas terras eram inabitadas devido ao frio insuportável. No extremo norte, nem mesmo os animais arriscavam-se aventurar, pois os ventos cortavam as bochechas como lâminas e os dedos congelavam rapidamente. Mas na região sul era possível viver sem muitos problemas, onde a criação de gado nariz-azul predominava e alguns vilarejos pesqueiros faziam a economia fluir para o Continente.

A Toca da Raposa era uma famosa estalagem localizada na principal rua de Tremilar, a capiral de Elegios. Tratava-se de uma grande construção de dois andares, composta por troncos de madeira e com o interior completamente coberto de couro. Logo acima da porta de entrada havia uma pele de raposa pregada a madeira, onde o nome da estalagem estava escrito com ferro quente. No térreo uma lareira ajudava a manter os fregueses aquecidos, e lá, numa das mesas redondas, estava Silamus Bertio, segurando uma caneca de aguardente na mão direita.

É ele mesmo, não é? – Sussurrou um homem para o outro, numa mesa não muito longe de Silamus.

Não tenho certeza. Ouvi dizer que ele tinha perdido uma orelha no ano passado, para uma criatura do mar. – Respondeu o segundo indivíduo, com um tapa-olho desbotado cobrindo a órbita esquerda.

Silamus era um famoso mercenário, e provavelmente um dos mais habilidosos de seu tempo. Apesar de ter nascido no Continente, a família Bertio se mudou para a ilha de Elegios fugindo de dívidas e ameaças de morte. O povo elegiense nutria uma certa aversão a estrangeiros, talvez pelo fato de serem explorados por impostos da Coroa e também por ainda guardarem feições físicas de antecessores distantes, tendo a pele mais branca que o comum, traços faciais fortes, e uma altura levemente superior à de outras etnias.

Mesmo tendo realizado suas primeiras façanhas naquela ilha, Silamus sempre sofreu com os preconceitos xenofóbicos de seus habitantes. É claro que haviam exceções, mas ele somente consagrou sua reputação no Continente, onde capturou Ivan, o Terrível, esfolou a Grande Cobra de Carpuseis, queimou o Vampiro de Dubrava, e matou inúmeras bestas errantes. Lá, de onde suas raízes vinham, o passado escuro da família Bertio havia sido ofuscado pela glória de Silamus, hoje sendo o último membro em vida da mesma, desconsiderando os bastardos postos no mundo pelo mercenário viajante.

Traga mais – Silamus disse para o servente da estalagem, e encostou o ombro no couro da parede, descansando o torso.

Ele deu uma última golada na bebida, encontrando o fundo do recipiente. O líquido quente que descia por sua garganta ajudava a afastar o frio, e apesar da ardência no início, era fácil se acostumar. E depois de uma longa viagem marítima até Elegios, tudo o que o mercenário desejava era se embriagar e dormir, para que no dia seguinte pudesse resolver seus assuntos na ilha.

Há três dias, quando estava no Continente rodeado de prostitutas e jogando seu dinheiro ao vento, Silamus recebeu uma mensagem da terra onde crescera, uma carta amassada, que, julgando pelo seu estado de conservação, parecia ter passado por muitas turbulências antes de chegar ao destinatário. Estava assinada pelo ancião de um vilarejo elegiense implorando para que o caçador de monstros viesse e solucionasse o problema. Fenda do Oeste era o nome do lugar, onde a maior parte dos moradores criavam gado nariz-azul, típico da região.

O servente da Toca da Raposa trouxe uma garrafa arredondada e despejou a bebida na caneca de Silamus, que coçou a barba rala e continuou bebendo. Ele havia notado que os dois sujeitos não muito longe dali falavam dele, era um homem atencioso, mas pouco lhe importava, pois tinha noção de que aos olhos daquelas pessoas, ele era apenas um forasteiro e que quanto mais cedo partisse, melhor seria.

A pesada porta da estalagem se abriu e um forte vento entrou pela passagem, fazendo oscilarem as chamas da grande lareira. Uma figura coberta por um casaco de pele de urso entrou com os ombros encolhidos e um gorro de lã na cabeça. A barba cinzenta crescia desordenadamente abaixo do nariz, e as sobrancelhas grossas acima dos olhos azuis estavam pontilhadas com flocos de neve. O homem de aparência velha vasculhou o salão com os olhos, até que encontrou Silamus, e se dirigiu a ele.

Que bom que veio, Bertio – Disse com uma voz cansada assim que se aproximou.

Dificilmente recuso um trabalho que me pague bem, Ancião – Respondeu, e fez um sinal com a mão para que o recém-chegado sentasse no assento ao lado.

Ouvi boatos de uma confusão no porto… – Falou sem jeito – Espero que já esteja tudo resolvido.

A não ser que o capitão do barco queira quebrar o nariz de novo, está tudo resolvido.

Certo, certo… – Concluiu.

O Ancião sabia exatamente o que havia acontecido, pois o capitão do navio era seu neto, um homem bem ganancioso que resolvera cobrar o dobro do preço da viagem pela grande quantidade de bagagem que Silamus carregou.

Então, você escreveu dizendo que dezenas de narizes-azuis desapareceram, e outros foram encontrados mutilados. Alguém viu alguma coisa? – O mercenário perguntou.

Não, os ataques acontecem durante a noite, quando todos estão dormindo.

Com que frequência? – Disse logo depois de um longo gole de bebida.

Duas, três vezes por semana – Respondeu o velho coçando o queixo, com as pontas dos dedos escondidas entre a barba.

Silamus ficou em silêncio por um momento, pensando nas mil e uma hipóteses para o caso na Fenda do Oeste, mas já estava óbvio que o assassino de gado era um predador grande, já que o nariz-azul era uma espécie bovina de porte grande, couro duro, e força estonteante, um animal difícil de matar aos montes numa única noite.

– É uma pena que em Elegios neve tanto… Se houvessem pegadas eu poderia ter uma pista muito maior. – Silamus comentou, coçando o nariz com o polegar.

– Mas como pretende encontrar a criatura, Silamus? – Falou, com um certo temor nos olhos.

– Mostre-me o último lugar em que ela esteve. – E se levantou.

– É claro, vamos antes que a nevasca chegue.

Ambos se levantaram. O velho ajeitando os panos que cobriam seu corpo, e Silamus deixando algumas moedas de bronze no balcão da estalagem. O estalageiro murmurou um obrigado e pediu gentilmente para que a porta fosse fechada.

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