Uma Consciência Sem Direção

 Acredito que tenha sido mais ou menos à meia-noite. Lamento, mas por mais que eu me esforce, não consigo me lembrar de como chegamos até o carro. Me recordo de ter ido trabalhar no escritório como num dia qualquer, de ter entregado os relatórios e os pedidos pendentes para meu chefe insuportável, mas não faço ideia do que fiz logo depois que saí do edifício. No banco de trás estavam Beatrice, com a maquiagem do rosto borrada e desmanchando como uma vela derrotada pelo fogo, e ao lado dela Erick, meio calvo e desleixado, ele andava ocupado demais e nunca parecia feliz. Eu estava no banco do carona, pensativo. Francis dirigia. E ele estava muito bravo.

Eu juro que tentei, busquei nos cantos mais remotos de minha memória, mas não recordo o motivo da briga e a razão de todos estarem irritados comigo. Chovia muito, o que explicava a maquiagem se desmontando no rosto de Beatrice, mas àquela altura ela parecia não se importar. Todos estavam zangados, inclusive eu, com eu mesmo.

Francis guiava o volante usando apenas a mão direita, e roía as unhas da mão esquerda. A chuva estalava na lataria do carro cada vez mais forte, a tempestade ia piorando, até que não consegui manter aquele silêncio sufocante. “Eu quero saber no que tá pensando.” falei. “Foda-se o que você quer saber. Você precisa esquecer o que sabe. Esse é o seu problema. Você precisa esquecer o que acha que sabe sobre a vida, sobre amizade, e principalmente sobre nós três.” ele respondeu falando tão rápido que quase me perdi. “O que?” eu disse enquanto o encarava “O que você quis dizer com isso?”.

Ele não me respondeu. A estrada pela qual seguíamos estava pouco movimentada, mas ainda assim alguns carros passavam de vez em quando. Francis colocou as duas mãos no volante e ultrapassou a faixa da pista, seguindo a 120km/h na contramão. “O que você tá fazendo?” perguntei no mesmo instante. “Pessoal, o que vocês gostariam de fazer antes de morrer?” ele perguntou para Beatrice e Erick. “Pintar um auto-retrato”, respondeu Beatrice, esperançosa. “Construir uma casa” Erick disse. Para minha surpresa nenhum deles questionaram a ação de Francis, que, naquele momento, olhava fixamente para mim. “E você?” indagou. Eu estava assustado e já podia ver os faróis de outro veículo vindo em nossa direção. “Eu não sei! Não vem nada na minha cabeça. Agora volta pra faixa da direita!” e puxei o volante para a direita. Por pouco não colidimos com um caminhão, que passou buzinando.

Os limpadores do pára-brisa estavam sendo sobrecarregados pela chuva, e a visão da estrada ficava ainda mais turva. “Você tem que saber a resposta para essa pergunta!” Francis gritou logo depois “Se você fosse morrer agora mesmo, como se sentiria sobre sua vida?”. Eu sempre senti um pouco inveja de Francis. “Eu não sei. Eu não sentiria nada bom sobre minha vida. É isso que quer ouvir? Beleza.” eu falei. Ele não gostou da minha resposta e voltou para a contramão. Um carro que vinha naquele instante quase colidiu frontalmente com nós, mas jogou o carro para o acostamento, desviando da gente, e os outros dois carros que vinham logo atrás fizeram o mesmo. “Volta pra direita! Meu Deus do céu! Cuidado!” eu não parava de gritar essas coisas “Jesus Cristo! Vai se fuder, Francis! Vai nos matar!”, Beatrice e Erick pemaneceram quietos enquanto eu e ele discutíamos. “Eu já me cansei de você e suas palhaçadas!”.

Eu puxei o volante e joguei o carro para a direita, fazendo com que saíssemos da contramão. Francis disse “Beleza, cara. Beleza.” e sorriu nervosamente. Por um segundo pensei que ele não faria mais nenhuma besteira, mas ele havia tirado as mãos da direção do veículo, que agora seguia seu próprio rumo pela pista escorregadia. “Para com isso!” eu gritei “Segura o volante! Segura o volante!”. Ele suspirou diante do meu desespero dizendo “Olha pra você… olha pra você!” e eu não entendia. “Você é patético!”, e eu perguntei “Por que?”. Ele não me respondeu de imediato, apenas colocou o cinto de segurança. Beatrice e Erick o imitaram, e eu acabei fazendo o mesmo, pois até então não havia notado que estava sem. “Algumas vezes você precisa deixar rolar…” Francis disse, sem as mãos no volante.

Devo ter me distraído, mas eu só conseguia encarar Francis e repetir a última frase dele em minha cabeça dezenas de vezes por segundo numa tentativa fútil de decifrá-la. E antes que eu percebesse, o carro em que estávamos escolheu por conta própria ficar longe da contramão e seguir ainda mais pela direita, onde encontrou o fim da estrada, e o início de uma ribanceira encharcada. E assim capotamos. Não me lembro quantas vezes, apenas que foram muitas. Acordei horas depois, num hospital, e conversei com os policiais sentado em volta da cama. Eu perguntava descontroladamente sobre meus amigos.

“Você estava sozinho, senhor” foi tudo o que me responderam.

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