Mais Uma Taça de Vinho

No final da estrada havia uma famosa estalagem. Apesar da aparência decadente e, de certa forma, asquerosa, O Repouso dos Viajantes era o local predileto daqueles que trafegavam entre as cidades de Carvalho do Norte e Carvalho do Sul. Ela estava quase sempre abarrotada de clientes que geralmente elogiavam a boa comida. Apesar das constantes aparições de ratos e baratas, o Velho Reone mantinha o local livre de baderneiros e brigas, pois todos temiam os danos que a poderosa espingarda de cano duplo poderia causar caso fosse retirada do baú que a mantinha escondida.

O episódio em questão ocorreu no início da noite de um dia que subitamente adotou um clima frio e céu fechado. Alguns hóspedes bebiam e comiam nas cadeiras do bar, conversavam como costumavam fazer, até que uma figura estranha surgiu vinda da recepção carregando malas e com botas enlameadas.

– Desculpe-me, senhor. Não recebemos hóspedes depois das seis. – Disse o Velho Reone de trás do balcão do bar – Devo ter esquecido de trancar a porta da frente.

As pessoas ao redor olharam discretamente, mas continuaram fingindo fazer o que faziam momentos atrás.

– Eu sei, eu sei… – O homem foi dizendo enquanto se aproximava do balcão e largava as malas ao lado de um banquinho de madeira. – Mas você abrirá uma exceção para mim, meu caro.

– E por que, em nome de Deus, eu abriria uma exceção? Sendo que esta regra foi imposta há mais de quarenta anos.

– Porque sou o Diabo. – Falou com simplicidade e um meio sorriso no rosto.

Quase todos que estavam no bar correram em pânico derrubando tudo em seu caminho, exceto por alguns rapazes curiosos que se esconderam atrás das mesas tombadas.

– Você me parece só um homem comum. – O Velho Reone falou com uma voz calma, mas apertou o crucifixo que usava pendurado no pescoço só por precaução.

– Eu admiro a espontaneidade dos homens, às vezes gosto de ser visto como um.

– É mentira!

– Mas é claro que é. Eu sou o mestre das calúnias. – Disse enquanto aconchegava seu traseiro no banquinho – Quero uma taça de vinho, por favor.

– Não vou servir bebida a um louco… – Velho Reone resmungou.

– E quanto a um louco com dinheiro? – O homem colocou uma grande moeda de ouro no balcão, que foi imediatamente pega e estudada pelo estalajadeiro – Não se preocupe, é verdadeira, meu caro. Apesar de ser conhecido e temido por meus supostos poderes, criar moedas de ouro falsas não é a melhor de minhas habilidades.

Um tanto quanto relutante, mas impressionado pela moeda de ouro que acabara de receber, o Velho Reone serviu  numa de suas maiores taças o vinho mais caro da adega.

– Excelente! Ouvi falar muito bem do vinho daqui, meu caro. – Disse o Diabo, que deu uma golada na bebida – Muito bom, muito gostoso… Sirva os dois jovenzinhos escondidos atrás da mesa também.

Miguel e Gabriel se entreolharam e congelaram agachados atrás da mesa. Tinham certeza de que o estranho não havia olhado para trás durante a correria que houve, de modo que não poderia saber de seu esconderijo, apesar de ser precário.

– Vamos, levantem-se e venham até aqui. – Ele insistiu.

Os dois rapazes, que já haviam se arrependido por não terem corrido gritando como todos os outros, se levantaram lentamente e caminharam até o balcão, apoiando os cotovelos sobre a madeira.

– Como se chamam, meus caros?

– Miguel. – Disse o de cabelo castanho e sobrancelhas grossas.

– Gabriel. – Sussurrou o mais baixo com uma cabeleira loira.

– Prazer em conhecê-los, creio que já sabem o meu nome. – E sorriu, voltando-se para o estalajadeiro – Sirva duas taças de vinho, uma para Gabriel, e outra para Miguel.

– Não tenho dinheiro, senhor. – Miguel disse, fazendo um sinal para que o Velho Reone não pegasse a bebida.

– Nem eu. – Gabriel declarou apalpando os bolsos vazios.

– Não há problema algum nisso. – Disse o Diabo enfiando uma das mãos no bolso do casaco e tirando outras duas moedas de ouro – Aqui está.

Com um tilintar ele colocou as duas peças redondas sobre o balcão e as empurrou na direção do Velho Reone, estupefato.

– Então quer dizer que o Diabo é uma criatura caridosa? – Velho Reone falou enquanto guardava as novas moedas no bolso de seu próprio casaco.

– De maneira alguma, meu caro. Sou um ser desprezível. – Respondeu enquanto bebia mais de seu vinho.

– Então por que presenteia estes rapazes com meu mais caro vinho? – Disse no mesmo instante em que servia as taças de Miguel e Gabriel.

– Ora! Permita-me responder a sua pergunta com outra pergunta. Deveria um homem sedento olhar outro homem saciar sua sede com bebida em abundância?

– Humm… – O Velho Reone pensou por alguns segundos – Acredito que isso seria razoavelmente desproporcional.

– Pois bem! – O Diabo respondeu animado – Então considere-me o primeiro a exigir direitos iguais, meu caro!

Os quatro se encararam por breves instantes e caíram na gargalhada.

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