A Sentença de Tomas

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O moreno trajava um terno de boa qualidade, e estava sentado numa das extremidades da mesa de madeira maciça. Era bem aparentado e segurava um lápis numa das mãos, e um bloco de notas contendo algumas coisas escritas na outra. Parecia bem tranquilo e até mesmo confortável, apesar daquele cômodo mal iluminado ter um aspecto claustrofóbico.

Do outro lado da mesa estava Tomas. Um sujeito bem entediante apesar de não ser tão velho quanto aparentava. Tinha cabelos castanhos e um bigode bem farto.

– Tomas, você sabe por que está aqui, certo? – O homem perguntou sem tirar os olhos do bloco de notas.

– Sim… – Tomas respondeu apreensivo.

– Então pode repetir, por favor?

– Estou morto. – A palavra claramente o incomodava.

– E? – O homem no terno disse balançando o lápis e erguendo as sobrancelhas para ele.

– E estou no inferno, mas não sei o motivo, sempre fui uma pessoa boa, um cristão devoto. – Sua voz ficou meio trêmula conforme foi terminando a frase.

– É claro que foi. Você morreu enquanto dormia. Morte súbita, praticamente indolor, causada pela epilepsia. – Ele folheou o bloco – E você acreditava que acabaria morrendo enquanto dormia desde os vinte anos de idade. Parabéns, acertou na mosca!

Tomas continuou olhando para ele, meio que assustado e sem entender muito bem o comentário do homem do terno. Ele buscou o crucifixo que sempre carregava no peito, mas lembrou que tal símbolo era proibido onde estava. Ameaçou levantar a mão para fazer uma pergunta.

– Pergunte logo, não precisa levantar a mão.

– Você é o Diabo? – Tentou parecer o menos inconveniente possível.

– Mas é claro que não. – Ele respondeu como se fosse a pergunta mais idiota do mundo. – Mas se há necessidade de saber quem sou, pode me chamar de Ronove, não é muito usado hoje em dia, mas é o único que gosto.

– Certo. – Tomas entrelaçou os dedos e continuou a despejar perguntas – O que vim fazer aqui nesta sala, exatamente? Quando cheguei você mencionou que sou um caso raro, o que isso significa?

– Tudo será esclarecido em breve, apenas relaxe. Vou fazer uma pergunta, quanto mais rápido responder, mais rápido sairemos daqui. – Ronove sorriu para ele, como se todos os seus problemas fossem ser resolvidos depois disso.

Tomas assentiu e deu mais uma olhada naquele cômodo fantasmagórico. Uma única lâmpada amarela estava pendurada a partir do teto cheio de infiltrações e teias de aranha. As paredes estavam razoavelmente limpas, mas com um semblante abandonado por conta dos azulejos partidos ou trincados, e não havia nada mais para olhar.

– Muito bem. – Ronove falou de repente, assustando o acuado Tomas, e manteve os olhos em seu bloco de notas o tempo todo – Antes de morrer você estava tendo um sonho muito intenso. Gostaria de me contar?

O morto abriu a boca para dizer que não se lembrava dos detalhes, mas surpreendentemente ele percebeu que sim, se lembrava dos detalhes e com perfeição jamais experienciada.

– Bem… – Ele começou – Me lembro de estar numa floresta caminhando sem preocupações, mas não era exatamente meu corpo que eu controlava. Tinha quatro patas, couro, chifres, e um rabo. Não sei dizer exatamente o que eu era, poderia ser um cervo, um veado, uma cabra, mas acho que não é importante, eu me sentia poderoso independente do que fosse.

– Continue, por favor. – Ronove pediu após uma período moroso da parte de Tomas, anotando coisas.

– Eu brilhava, mas não era luz, era algo maior e mais forte, tanto que meu corpo parecia um borrão branco, ofuscante como o sol. Eu sabia que tinha alguma cor, mas acredito que ninguém pudesse enxergar. – Tomas tinha o olhar perdido enquanto falava, parecia estar revivendo seu sonho – Nunca me senti tão poderoso em toda minha vida. Algumas sombras de pessoas me olhavam temerosas, tentando se esconder atrás das árvores, mas minha grandiosidade não havia sido feita para que olhos mortais admirassem, eu era algo incompreensível pelos seres mortais.

Entre as palavras que Tomas dizia era possível escutar o som do lápis rabiscando a folha do bloco de notas, transcrevendo tudo o que era pronunciado. O ambiente ao redor era puro silêncio.

– A sensação que tive enquanto caminhava era que nada fosse impossível pra mim. Podia criar e destruir o que quisesse e da maneira que achasse melhor. Apesar de não ter asas, voar não era um problema, eu me sentia capaz de subir até a Lua num piscar de olhos. Nunca me senti tão próximo de Deus, e, ainda no sonho, comecei a rezar, esperando encontrá-lo e agradecê-lo pelos poderes que me foram concedidos naquele momento. Não me preocupei em saber o por quê de estar na pele de um animal, ou como havia ido parar naquela floresta, eu queria apenas conhecê-lo. Apesar de parecer tudo real, eu não me questionei sobre nada. – Vez uma pausa para umedecer os lábios.

– Entendo. – Ronove disse, agora olhando para Tomas com um ar de esperteza. – O sonho continuou por mais alguns instantes, não é mesmo?

Tomas hesitou antes de continuar. Se perguntou o motivo de Ronove induzir ele a prosseguir com a história, mesmo parecendo já conhecer todos os detalhes da mesma.

– Sim. – Tomas falou. – Eu caminhei por mais algum tempo. Sentia tudo ao meu redor, cada inseto, gota de água, e criatura viva, inclusive Deus Todo-Poderoso. Notei que a cada passo que dava, me aproximava ainda mais Dele. Quanto mais ia em frente, uma escuridão tenebrosa se intensificava na floresta, ou talvez fosse meu próprio brilho oscilando, não sei dizer muito bem. As folhas, flores, grama, arbustos, toda a natureza assumiu cores diferentes, variando entre púrpura e vermelho-escuro. Era bonito, mas senti que, caso continuasse naquela trilha, perderia os poderes de proporções eternas que tinha. Resolvi dar meia volta e seguir por outro caminho. O vermelho-escuro ainda era bem vivo nas copas das árvores, e os troncos e gravetos permaneceram púrpuras. Para ser sincero, não me importei nem um pouco. Toda a minha essência manteve seu brilho e sua imponência. Eu era infinito…

– Algo mais a dizer? – Ronove finalizou suas anotações.

– Não, isso é tudo. – Bufou – Ainda vou para o inferno?

– Vai. Mas anime-se. Não é tão ruim quanto parece.

– Não, por favor! – Tomas gritou com os olhos lacrimejantes, caindo de joelhos e fazendo um sinal de cruz no peito. – Eu sou uma pessoa religiosa, não sou um pecador!

– Você, pobre Tomas. – Ronove se levantou e olhou para o morto de cima para baixo. – Voou perto demais do sol. A saída fica logo ali.

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