Katyusha

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Frente Oriental, Batalha de Rostov, 1941.

Dezoito soldados abrigavam-se naquela estreita trincheira que perdia cada vez mais sua profundidade devido a neve. O Sargento Nikolai era jovem, mas experiente o bastante para liderá-los naquela batalha, e assim como seus camaradas, tinha uma carabina carregada em mãos.

Em frente havia apenas um campo aberto, uma direção arriscada de seguir, pois não muito além um amontoado de árvores servia de cobertura para os alemães, que no momento aguardavam apenas o avanço do inimigo para dispararem suas metralhadoras.

Aguardem o apito – Disse Nikolai, tentando repreender os soldados que levantavam a cabeça para espiar o campo. – Me dê um cigarro, Gagarin.

Gagarin era um soldado loiro e de olhos azuis, tinha dezessete anos e isso fazia dele o mais jovem do esquadrão. Ele enfiou a mão num dos bolsos do casaco acizentado e tirou dois cigarros amassados, com tabaco saindo do filtro. Com um isqueiro acendeu os dois cigarros na própria boca, um véu de fumaça saiu de suas narinas. Passou um deles para o Sargento, que agradeceu e deu uma tragada profunda.

Uma onda de explosões cortaram o ar. Tiros de morteiro caíam por toda a parte. Os alemães certamente queriam ver as tropas russas se movimentando. Além do esquadrão de Nikolai, outros quinze jaziam escondidos em trincheiras naquela área, apenas aguardando o apito do Coronel Kolmogorov soar para o avanço começar. As munições de morteiro caíam pesadas no chão levantando uma massa de neve e terra quando explodiam, causando um estrondo ensurdecedor para quem estivesse próximo. Uma delas caiu ao lado da trincheira, destruindo alguns sacos de areia e arremessando com velocidade uma pedra do tamanho de uma maçã, que atingiu em cheio a boca do Sargento Júnior Vladimir.

Blyat! – Ele praguejou, cuspindo sangue na neve branca.

Está tudo bem, camarada Vladimir? – Nikolai perguntou, tentando analisar o ferimento.

Antes da guerra, Vladimir era um fazendeiro durão, e desde que ingressou no esquadrão mostrou ser um homem que não se abalava com facilidade. O Sargento Júnior fez que sim com a cabeça e enfiou dois dedos na boca, arrancando um dente que fora quebrado com a pancada.

Os tiros de morteiro cessaram. As equipes alemãs deviam estar trabalhando arduamente para recarregá-os o mais depressa possível nesse instante. E então, o apito soou.

As tropas soviéticas emitiram um urro uníssono e saíram das trincheiras num pulo quase sincronizado. O Coronel mantinha o apito nos lábios, soprando-o com todo o fôlego que conseguia reunir. Alguns soldados atreviam a executar alguns disparos, mas o inimigo estava favorecido pelas árvores, e, até que os russos estivessem numa posição mais rente, seus disparos seriam como tiros no escuro.

Emergiu das árvores além do campo pelo qual os soviéticos avançavam o típico som de uma metralhadora. As rajadas de munição zuniam pelos ares, felizmente longe do esquadrão de Nikolai. Gagarin olhou para o lado direito e viu à uns vinte metros de distância outro esquadrão avançando ferozmente. Um dos soldados de lá erguia a bandeira vermelha da União Soviética, o que fazia deles um alvo de prioridade para os alemães.

As metralhadoras inimigas continuaram a despejar sua fúria, mas não eram suficiente para impedir o avanço por completo. Gagarin observava o esquadrão ao lado, que nesse momento já estava mais à frente, lutando para atravessarem uma série de árvores tombadas e cercas de arame farpado destruídas por um bombardeio aéreo no dia anterior. Num piscar de olhos, Gagarin pôde ver pelo menos dez daqueles homens caírem, alguns deles tentaram se levantar mesmo estando feridos, mas falharam quando mais rajadas de tiro foram lançadas. O porta-bandeira seguiu por mais alguns metros, acompanhado de cinco ou seis camaradas, mas não demorou para que estes fossem derrubados também, com sangue escorrendo pelos uniformes e a bandeira ao chão.

Havia um leve declive não muito à frente que poderia servir de cobertura para os soviéticos, de onde poderiam retribuir os disparos, mas antes que algum dos esquadrões chegasse lá, os morteiros retornaram, deixando a situação ainda menos favorável para os russos. O som do apito cessou. Talvez o Coronel tivesse sido atingido. Talvez as explosões o estivesse abafando. Mas naquele momento todos já estavam em seu limite, prestes a perderem as esperanças.

Por aqui! – Nikolai gritou, atirando-se num buraco de bomba.

Haviam outros buracos pequenos ao redor, todos causados pelas bombas do dia anterior, onde agora os soldados de Nikolai buscavam abrigo.

Quantos perdemos? – Nikolai perguntou a Vladimir, que dividia o mesmo refúgio que ele.

Mastev. Sergey. Invanenko. E Chekhov é este homem que você tá escutando gritar no buraco ao lado – Respondeu, fazendo um sinal para que Nikolai ouvisse os gritos de dor.

Estamos perdidos! – Algum soldado gritou.

Senhor… O que faremos? – Disse Vladimir, com um tom de voz que Nikolai nunca havia visto nele antes.

O Sargento Nikolai ficou em silêncio por alguns segundos. Ele estava abraçado em sua carabina e fitava o chão com seus grandes olhos negros.

A ajuda virá… – Sussurrou, e Vladimir pensou que o sujeito estava catatônico.

E Nikolai começou a cantar.

“Floresciam macieiras e pereiras

Pairava a névoa sobre o rio

E para a margem saía Katyusha

Para a margem alta, para a ribanceira”

As explosões de morteiro ainda estavam presentes, assim como o uivo das metralhadoras, sobrepondo a voz do Sargento. Mas ele prosseguiu, com a voz ainda mais alta.

“Ela surgia entoanto uma canção

Sobre a águia cinzenta das estepes

Dedicada àquele que amava

Dedicada àquele cujas cartas guardava”

Os soldados por perto olharam confusos para Nikolai, que agora estava de pé e com os braços erguidos para o alto, ignorando o perigo. Curiosamente, um ruído diferente veio pelos ares. Faixas escuras desciam do alto, adicionando listras de fumaça negra ao céu azul. Foguetes caíam sobre as árvores, explodindo e destruindo tudo que tocavam. Galhos foram lançados para o alto, árvores caíram, os tiros de metralhadora cessaram, e os russos gritaram de alegria, erguendo suas carabinas para cima e se juntando a Nikolai na cantoria.

“Ó, és a canção de uma moça

Voe atrás da luz viva do sol

E ao combatente na distante fronteira

Katyusha manda saudações

 

Que ele se lembre da humilde moça

Que ele ouça como ela canta

Que ele conserve nossa terra natal

Assim como Katyusha o amor conservará

 

Floresciam macieiras e pereiras

Pairava a névoa sobre o rio

E para a margem saía Katyusha

Para a margem alta, para a ribanceira”


Nota do autor

Este conto foi inspirado pela música “Katyusha”, escrita em 1938 e cantada pela primeira vez em 1941 por garotas de uma escola de Moscou como despedida às tropas que marchavam para lutar contra a Alemanha Nazista na Frente Oriental. A música passou a ser associada com os veículos BM-8, BM-13, e BM-31, todos lançadores de foguetes que coincidentemente receberam o nome de Katyusha.

Ouça a música cantada em russo.

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O Golem


Silêncio. Seus ouvidos pareciam terem se fechado para qualquer barulho, mas ainda assim os olhos teimavam em abrir uma fresta para investigar o que estava acontecendo ao redor. De vez enquanto Ele os abria e fechava, ardiam como se estivessem cheios de areia. Uma dor cortou-lhe o peito e se espalhou como água entre as costelas expostas, com uma rápida olhada percebeu que estava sendo submetido a uma cirurgia, já que alguém com vestes de médico e luvas ensanguentadas mexia e despejava resíduos em sua vísceras.

Poupe-me da dor… – Implorou num último esforço e deitou a cabeça, desacordado.

Quando finalmente voltou à consciência, viu-se amarrado numa cama com lençóis manchados de seu próprio sangue. Seus olhos não ardiam mais, mas se sentia estranho, não parecia mais o mesmo, não sentia mais dor nas saturações e tudo parecia ter ficado cinza. Ele se levantou arrebentando as tiras de couro presas nos punhos e olhou para os lados, vendo estranhas ferramentas cirúrgicas que mais pareciam equipamentos de serralheria, todas com sinais de uso. Do lado de fora da janela caía uma verdadeira tempestade, relâmpagos iluminavam o cômodo momentaneamente, permitindo que e Ele localizasse uma porta sem maçaneta. Andou sobre os pisos imundos e tentou chamar por alguém, mas ao abrir a boca percebeu que não tinha mais voz, e a única coisa que suas cordas vocais emitiam era um urro agonizante. Foi até a janela e buscou alguma maneira de sair por ela, mas era muito alta, pois estava no topo de um farol à beira de um penhasco. Ele olhou para o horizonte e viu um céu cinzento tomado por nuvens negras despejando sua fúria num mar agitado, que por sua vez golpeava os rochedos do litoral. Mais uma vez Ele urrou, e o som de sua voz amaldiçoada perdeu-se em meio a raios e trovões.

Desesperado, golpeou a porta velha que o mantinha confinado e, para sua surpresa, ela se desfez num monte de lascas e farelo de cupim. No cômodo adiante ele escutou música vinda de uma vitrola, aparelho de luxo para época, e ao lado, sentado numa cadeira e com um charuto na boca estava o Doutor, que fixou seus olhos lacrimejantes no brutamonte que saíra da sala de cirurgia. Levantou, lançou o charuto para longe e se ajoelhou perante Ele.

Ó Deus! Ó Grande Criador! Até onde vão os doentios desejos do homem? Perdoe-me, perdoe-me! Agora percebo que nada pode ser criado senão pelas mãos divinas do Senhor!

O Doutor caiu choramingando, e Ele, o golem, permaneceu imóvel por algum tempo, até que, aos poucos, sua mente fora invadida por uma súbita vontade, uma vontade que percorria seus braços, suas pernas, e o seu peito sem coração. A vontade de matar. Suas mãos agarraram o sujeito violentamente e sem muito esforço o dividiu em dois, fazendo um estalo quando lhe partiu a coluna vertebral, inundando o chão com órgãos e uma enxurrada de sangue. Ele seguiu para o fim da sala e desceu as escadas de madeira até chegar ao térreo, onde esmagou o cadeado da porta de entrada e seguiu para fora do farol.

Dias se passaram e a mente corrompida Dele aos poucos fora sendo dominada por aquela mesma vontade que o controlou na noite de seu despertar. E no fim, ele nem mesmo sabia que um dia havia sido humano.

O Tormento de Jerrold

As terras além do Rio das Raízes eram pouco visitadas e repletas de histórias tenebrosas, muitas delas são claramente inventadas para assustar crianças e impedir que elas andem sozinhas por aí, mas outras foram criadas para despertar a valentia de aventureiros. Outrora chamada de Reino de Venora, todo o povo que lá vivia fora dizimado por uma praga desconhecida, uma doença que fazia seus olhos derreterem e os ossos virarem cinzas, ou pelo menos era assim que a lenda relatava, mas o fato é que a tal praga, apelidada de Maldição Venoriana, exterminou os homens e animais do reino, inclusive a nobreza, que deixou para trás todas as suas riquezas. Obviamente, muitos foram atrás dos tesouros perdidos, mas por mais que tentassem, ninguém nunca retornou, até que certo dia todos os caçadores de tesouros e aventureiros em geral chegaram à conclusão de que as coisas levadas pela Maldição não deveriam ser tomadas, e que os fantasmas do passado não devessem mais ser perturbados. Então, muitas décadas se passaram e até mesmo as famosas histórias de armaduras de ouro e coroas de diamantes haviam sido esquecidas.

Sir Jerrold era um homem de muitas posses, tinha dinheiro suficiente para viver uma vida boa, um bom treinamento com a espada, um cavalo saudável, e um castelo bem conservado, mas ainda assim, sua eterna busca por reputação o motivou a partir para as regiões além do Rio das Raízes, a terra amaldiçoada. Muitos acharam que Jerrold havia perdido o juízo depois da Batalha de Eswick, e talvez realmente tivesse, porque desde então ele costumava dizer para seus criados que estava sendo perseguido, e algumas vezes começava a se contorcer na cama dizendo que havia sido abatido por uma doença maligna quando na verdade sua saúde estava perfeitamente normal. Louco ou não, Sir Jerrold trajou sua armadura, preparou alguns equipamentos de viagem, e partiu montado em Fard, seu melhor cavalo.

Foram três dias à meio-galope com pequenas pausas de quinze a vinte minutos. No primeiro dia o cavaleiro partiu de seu castelo e cavalgou pela Estrada dos Mercadores até alcançar a Ponte de Pedra, uma construção antiga, mas que resistiu ferozmente contra a força do tempo, e de lá seguiu pela orla da floresta, um caminho difícil, pois Jerrold fora frequentemente perseguido pelos foras da lei que viviam por aquelas bandas, mas os cavalos magros e pequenos dos bandidos não foram capazes de alcançar Fard, um majestoso puro-sangue da raça castír. Jerrold já estava exausto e quase dormindo sobre a crina do cavalo quando chegou em Narder, um vilarejo pacato onde o cavaleiro cansado encontrou uma boa estalagem para descansar a cabeça e dormir por algumas horas. O estalajeiro o atendeu com gentileza, reservou para ele um dos melhores quartos e guiou Fard para os estábulos enquanto Jerrold bebia um pouco de vinho. Após quatro ou cinco canecas da bebida, ele foi para seus aposentos, onde encontrou uma aconchegante cama de palha e adormeceu antes mesmo de tirar as botas.

Ao acordar, já vestido para prosseguir com a jornada, o cavaleiro pagou o dono do estabelecimento com algumas moedas e cavalgou pela estrada até atingir os Campos Verdejantes, terras que pareciam não ter fim para ele. O segundo dia foi o mais longo de todos. Colinas cobertas de grama eram tudo o que Jerrold via ao olhar para frente ou para os lados, parecia que estava andando em círculos, a paisagem era muito igual e não havia nenhum ponto de referência para que pudesse se orientar. Quando o sol começou a sumir no horizonte, o cavaleiro começava a ficar preocupado, perguntando a si mesmo se havia mudado o curso da viagem por acidente, mas pouco depois Jerrold sorriu de orelha a orelha ao ver a grande muralha de pedra de Karadin. Metade da muralha estava arruinada e a outra metade cheia de rachaduras, mas ainda assim era possível encontrar ali o esplendor que algum dia Karadin já teve, uma vez que ela foi a capital do Reino de Astérius há muitos, muitos anos. Mas agora ela não passa de um amontoado de casebres que abrigam camponeses da região, já que as casas mais antigas feitas de pedra estão todas desmoronadas ou infestadas com ervas daninhas e insetos. A estadia em Karadin durou pouco, apenas tempo suficiente para alimentar o cavalo e reabastecer o cantil.

Quando anoiteceu, Jerrold acendeu uma tocha e continuou sua aventura montado em Fard, que cavalgava lentamente, como se estivesse apenas passeando nos jardins do castelo. Jerrold ficava mais animado conforme seu destino se aproximava. É claro que não era só pelos “tesouros”, mas sim porquê ele sentia falta de uma aventura, algo que pudesse despertar a juventude de seu coração, e essa sensação maravilhosa é que lhe dava forças para continuar.

A estrada pela qual seguia não tinha nome, e pelas moitas espalhadas aqui e ali dava pra notar que ela não recebia manutenção há bastante tempo. Ali não havia muito movimento, e a falta de movimentação não atrai bandidos, o principal motivo pelo qual a viagem noturna de Jerrold fora tranquila e silenciosa. Tudo o que ouvia eram sons de corujas e morcegos de vez em quando. Ao se aproximar do Pântano dos Enforcados, Fard relinchou assustado quando uma grande cobra de escamas negras passou velozmente próxima de seus cascos, e mesmo não demonstrando interesse algum no viajante e sua montaria, Jerrold lamentou por não ter trago um cajado para espantar animais. A estrada desaparecera num piscar de olhos, transformando-se numa espécie de ponte de terra batida que passava por cima dos lamaçais e arbustos espinhosos, por onde o cavaleiro guiava seu cavalo cautelosamente. Também haviam algumas árvores fantasmagóricas e contorcidas, espalhadas pela superfície pantanosa do local. Jerrold não sabia muito sobre aquele lugar, mas já ouviu boatos de que o pântano era um belo bosque, cheio de vida e canto de pássaros, mas durante o reinado de Boris II, o Purificador, muitos bruxos foram enforcados nas árvores do local, e desde então o bosque passou a morrer vagarosamente, até se tornar um poço fedorento de répteis e lama.

Quando o sol nasceu, a pouca visão que a tocha fornecia não era mais necessária e Jerrold pôde ver com clareza o fim do pântano: uma singela aldeia com casas de palha. Ele ficou surpreso, não imaginava encontrar nenhum tipo de civilização aqui. Eram ao todo cerca de oito cabanas, mas o único ser vivo por ali era um homem magro vestindo trapos imundos, que o encarou friamente, provavelmente confuso sobre o que trazia um cavaleiro de armadura até terras tão malditas como esta. Jerrold decidiu que seria melhor não parar na aldeia. Era um local decrépito habitado por gente estranha, e ele podia jurar que havia visto um feto humano jogado na beira de um riacho barrento que serpenteava entre as cabanas.

Deixando a aldeia exótica para trás, Jerrold seguiu até o topo de uma colina para se orientar. Olhou para trás e viu toda a extensão do pântano pelo qual passara durante a noite, e mais além, no extremo horizonte, uma fina linha verde. A sua esquerda havia apenas montanhas, as quais ele julgou serem as Montanhas Vermelhas, e um pouco mais além o Desfiladeiro da Raiz Escura. Na direita não havia nada além de uma planície com pequenas aglomerações de árvores. E pedras imensas adiante, rodeadas por um gramado tão alto quanto um homem, um terreno perigoso, capaz de esconder animais selvagens. Jerrold optou por seguir pela planície, o que não o desviaria muito de sua trajetória. Ela sabia que grande parte destas terras, pelo menos as Montanhas Vermelhas, já foram dominadas por tribos de homens ferozes, amantes de batalhas e excelentes matadores, e disto ele tinha certeza, pois seu avô guardou durante boa parte de sua vida um machado de duas faces feito de bronze e com escrituras estranhas, ao qual ele próprio havia retirado das mãos do último líder destes bárbaros, que tentaram invadir o Reino de Astérius há pelo menos setenta anos no passado.

Se rendendo ao cansaço, Jerrold parou debaixo da sombra fresca de uma árvore e tirou um cochilo, enquanto Fard mordiscava a grama relativamente baixa. Ele queria prosseguir, tanto que sonhou com sua chegada ao Rio das Raízes, a fronteira para o território abatido pela Maldição. Seu destino estava muito próximo, a prova disso era o riacho barrento que havia visto naquela aldeia, provavelmente uma ramificação do Rio das Raízes. Acordou assustado, não queria ter caído no sono, mas calculou que havia dormido por pelo menos duas horas. Sendo assim, Jerrold levantou e espreguiçou os braços e pernas, um pouco doloridos devido ao longo período montado e ao peso da cota de malha. Montou em Fard, que até então estava amarrado na árvore e seguiu seu rumo a todo galope, correndo pela planície até que as Montanhas Vermelhas desaparecessem na direção oposta.

Ele freou o cavalo no mesmo instante em que contornou uma colina. A fronteira para o antigo Reino de Venora estava logo adiante, ele já podia ouvir o barulho da água correndo pelo rio, mas estava impedido de prosseguir. Uma fileira de figuras trajando mantos escuros se aproximava com passos lentos. O céu pareceu atingir uma tonalidade mais escura e Sir Jerrold notou que as mãos e os pés descobertos daquelas pessoas eram extremamente pálidos e magros, quase esqueléticos. As unhas amareladas tão grandes quanto às de um animal silvestre.

 Sou Sir Jerrold – Disse com a voz trêmula – De Astérius.

Pensou em galopar através daquelas pessoas e não dizer mais nada, mas sentiu a necessidade de se apresentar por estar sendo impedido de prosseguir. Ninguém o respondeu. O cavalo ficou inquieto e um zumbido agudo penetrava os ouvidos do cavaleiro, que lutava para se equilibrar na sela. As figuras de manto caminhavam lentamente em sua direção ao mesmo instante em que uma tontura tomou conta de Jerrold. Fard empinou e derrubou seu dono, que perdeu a consciência por alguns segundos.

Ao abrir os olhos, Jerrold percebeu que não conseguia se mover, parecia ter sido paralisado com algum tipo de veneno e apenas um dos estranhos estava ali, talvez nem mesmo houvesse outros. Fard desaparecera e o desespero abateu sua mente.

 O quê você fez? – Ele berrou – Onde está meu cavalo?

A figura retirou o capuz que cobria seu rosto e revelou uma face coberta de rugas e vasos sanguíneos rompidos. Os olhos grandes e completamente vermelhos lembravam os monstros que o atormentavam em pesadelos e em suas crises psicológicas, motivo pelos quais muitos o consideravam insano.

 É você! É você outra vez! Quem é você!? – O sangue corria rápido por suas veias e gotas de suor escorriam pelo contorno de sua face.

A criatura humanoide envolveu o cavaleiro em seus braços e o segurou com firmeza, pressionando suas unhas asquerosas contra o metal da cota de malha como se fossem pontas de lança. Em seguida aproximou a cabeça descoberta e moveu seus lábios secos, formando palavras que saíam frias como a morte.

 Venha para meu Reino.

E só então Jerrold percebeu que estava diante da própria Maldição Venoriana, a causa da destruição de um reino. E de sua morte.

Ferro e Pólvora

Uma repentina rajada de ventos atingiu a lateral do navio e forçou as velas e os balões auxiliares para que empurrassem toda aquela estrutura enorme, caso contrário acho que teríamos colidido com a nau flutuante que vinha logo à frente. No momento em que as duas embarcações voadoras estavam quase absolutamente alinhadas em paralelo, cada capitão de sua respectiva embarcação ordenou que os canhões fossem disparados, dando início a uma sequência de explosões ensurdecedoras. Fumaça e destroços preencheram o espaço entre os dois veículos. Abaixo do convés, homens agiam com urgência, com os braços sujos de pólvora até o cotovelo, precisavam recarregar os canhões o mais rápido possível. Não suportei a primeira onda de ataques e me encolhi atrás de alguns barris do convés, e segurei firme numa corrente para que não escorregasse e caísse de pelo menos dez quilômetros de altura. No curto período de tempo em que os dois lados recarregavam os canhões, ouvia-se apenas urros de comando e o lamento dos feridos.

Eu podia escutar até mesmo o grito e o praguejar dos inimigos, no navio ao lado. O Capitão Shoveler, que berrava ordens todo pomposo e imponente no convés, foi atingido assim que começou a segunda onda de disparos com uma projétil de canhão na perna, que a destroçou em um monte de carne vermelha, sangue e lascas brancas de osso, provavelmente o fêmur. Aquela segunda onda nos deixou muito abalados e a querida Eudora ameaçou tombar como uma montaria cansada e jogar toda a tripulação pelos ares, já que os bastardos do outro navio começaram a atirar nos balões auxiliares com mosquetes, fazendo com que eles murchassem tal qual o estômago de um cadáver.

Criei coragem, enquanto o Doutor Easton tentava ajudar o Capitão eu apanhei o mosquete de um camarada morto com a maior cautela, andando agachado entre o caos. Assim que tive a oportunidade, disparei contra um dos atiradores inimigos, um tiro certeiro na cabeça, talvez no olho, ele caiu rápido demais para que eu percebesse. Sem tempo para recarregar, larguei aquela arma ali mesmo e fui até um canhão solitário na popa da boa e velha Eudora, estava carregado e isso me animou ainda mais, o canhoneiro responsável por ele provavelmente fora lançado da superfície do navio, caso contrário seu corpo estaria por perto.

A segunda onda de disparos parou e era apenas eu e a embarcação inimiga, que devia estar a apenas uns vinte metros de distância de nós. Aquele modelo de navio me era familiar, os piratas gostavam muito dele pela mobilidade, porém, se atingido no ponto certo ele desabaria, e foi lá que eu apontei. A viga mestra, apelidada de “coluna vertebral”, localizada logo atrás do leme, poderia fazer o navio se partir ao meio caso fosse destruída, e eu só tinha uma única bala de canhão para disparar. Depois que já estava tudo bem posicionado e a terceira onda de disparos perto de começar (nesse momento Eudora estava sob comando do Oficial de Pilotagem Thorpe), fechei os olhos e queimei o pavio. E por um momento o estouro se juntou com os estalos de madeira se despedaçando, eu abri os olhos curiosos e vi a coluna vertebral da embarcação pirata se soltando e partindo logo em seguida, caindo livremente pelo ar. Aos poucos toda a popa ia se despedaçando até que não houvesse suporte para aguentar o mastro principal (presente naquele modelo de navio) e fazê-lo cair.

Vários homens caíram entre tábuas, canhões, caixas, dentre outras coisas que a gente vê em navios. Os aliados ainda vivos me parabenizaram e gritaram vivas, alguns, mais próximos do Capitão Shoveler, permaneceram em silêncio ao lado de seu corpo sem vida, que passou os últimos momentos se debatendo numa poça de sangue. Pude ver o Oficial Thorpe tirando seu chapéu em sinal de respeito e levantando os óculos de aviação, os deixando sobre a testa. Apesar das perdas e danos, a carga transportada permaneceu intacta e pronta para seguir viagem. Nosso destino estava próximo e a missão prestes a ser cumprida, logo estaríamos indo para casa.

A Unidade V-101 – Parte I

Apesar da avenida estar em péssimas condições, com carcaças de veículos e montes de entulho por toda parte, a unidade V-101 se movia pacientemente, mexendo suas poderosas pernas metálicas com lentidão. Com os braços cobertos de placas de proteção, o robô contraía seus cabos de força e fazia os rolamentos do ombro girarem para empurrar qualquer obstáculo que poderia impedir sua passagem, causando um estrondo metálico que podia ser ouvido à quilômetros de distância graças ao silêncio em que a cidade estava naquela tarde de domingo. No peitoral repleto de sangue seco e fuligem, podia-se ler “Vigilante 101”, mas não era assim que ele descobrira sua identificação, afinal de contas a grande câmera esférica que emulava um olho gigante acima do torso de metal não era capaz de ler formas de escrita humana, não fazia nada além de decidir a direção na qual o 101 deveria atirar, de forma que quando uma dúvida surgia, o Vigilante solitário consultava seu banco de dados, este recheado de números e códigos binários, linguagem a qual ele era muito familiarizado. O banco de dados era o mundo do 101, lá estava todo o conhecimento que ele foi capaz de armazenar durante seus vinte e cinco anos de serviço, que por um simples acaso estava se completando naquela tarde, enquanto ele abria passagem por uma avenida destruída. Seguindo o protocolo de segurança, de quatro em quatro horas o robô deveria checar sua integridade, e assim o fez, parando de andar subitamente e tendo sua visão obstruída por milhares de números que formavam o relatório de avaliação. Metralhadora giratória (membro esquerdo): Operante. Metralhadora giratória (membro direito): Avariada. / Ação recomendada: Contatar suporte. Caixa de munição: 114 unidades. / Ação recomendada: Contatar suporte. Motor principal: Operante. Câmera de visão: Operante. Cérebro positrônico: Operante Emissor de comandos: Operante. Projetor de voz: Operante. Antena de comunicação: Operante. Mecanismos de locomoção: Operante. Placas fotovoltaicas: Operante. Placas de proteção: Superficialmente danificadas. E assim que acabou, ele seguiu em frente. O relatório continuava o mesmo há anos, e há anos o 101 enviava um sinal para o Quartel-General requisitando um drone de reparos, mas nunca era atendido. A metralhadora acoplada ao braço esquerdo fora destruída por um desabamento há seis anos, por pouco ele não havia sido completamente esmagado, o que era um perigo constante. De acordo com o banco de dados, dezenove Vigilantes haviam sido vítimas de desabamentos, obrigando o 101 a ser mais cauteloso ao entrar nos edifícios abandonados da cidade. Ele também devia preocupar-se com o metrô, onde onze Vigilantes ficaram perdidos, e, incapazes de recarregarem suas baterias com energia solar, acabaram desativados para sempre no subsolo. Da lista de cem unidades, apenas três robôs ainda estavam operando. Por mais que tivesse procurado uma resposta no banco de dados, o 101 nunca encontrou o motivo pelo qual a lista terminava no Vigilante-100, e não no Vigilante-101, como deveria ser. Quando finalmente virou a esquina e entrou numa rua menor e com menos obstáculos, 101 prosseguiu sua caminhada sem rumo entre vários corpos esqueléticos, a maioria composta apenas de uma pele acinzentada e os ossos. Manchas de sangue na calçada já tinham adotado uma coloração negra, e havia buracos de tiro em todos os cantos. O 101, assim como seus semelhantes, havia sido designado para exterminar todos os seres humanos contaminados pelo vírus N-17 que encontrasse, que eram facilmente identificados pela câmera de visão. Ele matou vários deles, de acordo com o banco de dados, o número recorde havia sido alcançado há vinte anos, atingindo a marca de cento e oitenta e dois ao fim do dia. Entretanto, a média de infectados mortos por dia foi diminuindo absurdamente, e há mais de sete anos o 101 não faz um único disparo. O robô deveria ficar grato por isso, já que sua caixa de munição está quase vazia e o Quartel-General não mais responde seus pedidos de suporte. O último drone de reparos que veio em seu auxílio foi há treze anos, fez um bom trabalho consertando uma das placas fotovoltaicas e reabastecendo a munição, e eles insistiam em dizer que os Vigilantes deveriam ser mais cuidadosos. A visão do 101 vasculhava os estabelecimentos comerciais daquela rua, todos com vitrines estraçalhadas e vegetação lutando para crescer entre rachaduras no chão. Ao lado de um ônibus tombado estava um Vigilante caído, de braços abertos e com a câmera de visão desligada. 101 se aproximou e sua câmera logo o identificou como sendo a unidade V-55. Inutilizada por falta de energia há cinco anos. Após alguns minutos analisando o robô desativado, 101 notou que metade das placas de captação de energia estavam destruídas, e a outra metade coberta por uma grossa camada de fuligem. Provavelmente o 55 havia requisitado o suporte, mas não foi atendido. Pelo menos nem todos os Vigilantes desativados por falta de energia estavam no metrô, pensou 101, guardando tal informação no banco de dados. Andou por mais uma hora, lento como de costume. Nenhum sinal de infectados. Nenhum sinal de humanos. Nenhum sinal das outras unidades. 101 já estava acostumado a lidar com dias calmos, e até mesmo sentia falta de quando deixava seus desaparecidos superiores satisfeitos com os resultados do dia. O sol ia embora lentamente, e agora o céu estava quase totalmente escuro. Normalmente as baterias dos Vigilantes suportam operar durante a noite inteira, desde que estejam carregadas, mas este tinha sido um dia pacífico, e o protocolo de segurança exigia que em dias como este os robôs deveriam entrar em modo de hibernação para economizar energia. 101 preparava-se para desligar o motor principal quando recebeu uma mensagem inusitada. – Aqui é Quartel-General para a unidade V-101. Estamos enviando um drone para seu auxílio. Chegada prevista em quatro horas. Desculpe a demora, grandalhão.

A Rebelião de Ibomerus


Por muitos séculos, os monges Dai Bendu prestaram serviços para vítimas de guerra, tratando dos feridos e recolhendo os cadáveres para que estes tivessem um funeral com dignidade, algo muito importante ensinado por Ibomerus, o deus dos mortos, guardião das catacumbas do inferno. Mas tal costume não era de grande importância para as tribos bárbaras que viviam nas montanhas do oeste, sempre matando uns aos outros em nome de suas divindades com rostos de animais.

Por sorte, sabendo que eram aversivos a riquezas e completamente inofensivos, os líderes tribais permitiam que os monges recolhessem os corpos e fizessem um grande funeral coletivo para eles, desde que todos os pertences dos mortos fossem empilhados e devolvidos, para que pudessem ser usados novamente em batalhas futuras. E assim era feito.

Númer e Arthon, batizados como monges Dai Bendu desde o momento em que saíram do ventre de suas mães, recolhiam os corpos de guerreiros mortos num pequeno confronto que ocorreu no Desfiladeiro da Raiz Escura na manhã daquele dia, entre a tribo de Thalin e os seguidores de Romúk, o Rebelde. Era um dia fresco e os dois, já acostumados com o serviço, dariam conta facilmente de algumas dezenas de corpos. Alguns deles estavam bem mutilados, outros pareciam intactos, e alguns ainda respiravam, mas tão feridos que seria impossível ajudá-los.

Dezenove… – Contou Arthon, após depositar um corpo ao lado de muitos outros.

Faltam poucos – Disse Númer, olhando para os outros corpos que ainda trajavam vestes de guerra.

Um grunhido chama a atenção dos monges. Uma voz rouca parecia tentar formular palavras. Certamente algum dos corpos ali presentes demonstrava sinais vitais. Arthon e Númer rapidamente iniciaram uma busca pela fonte da voz, olhando cadáver por cadáver.

Está por aqui… Ei! – Indagou Númer, que sentiu algo puxando seu manto.

Ao olhar para o amigo, Arthon viu algo surpreendente, seus olhos piscaram e suas pernas fraquejaram. Um braço amputado se recusava a soltar o manto de Númer, fechando os dedos com força sobre o pano. Aos poucos, mais vozes roucas surgiram, como lamentos tenebrosos entre poças de sangue. Então os monges notaram. Os mortos estavam voltando à vida. Os corpos ao redor deles se moviam e tentavam se levantar. Alguns tinham expressões confusas nos rostos, mas outros pareciam bravos, com uma fúria apavorante nos olhos.

Incapazes de se mover ou pronunciar alguma palavra, os dois monges apenas permaneceram quietos e observaram aquela cena sobrenatural. Outro morto-vivo surgiu subindo numa pedra, este erguia a própria cabeça pelos cabelos ensanguentados para que pudesse atrair os olhares dos dois amigos. Com a boca jorrando sangue e os lábios arroxeados, a cabeça decapitada pronunciou algo:

Hoje a morte inundará o coração dos vivos, e a dor e sofrimento banqueteará sobre suas cabeças desprovidas de inteligência. Ibomerus reivindicou o Trono Divino. Os céus se tornarão escuros novamente.